Relações de dependência no dia da independência

O feriado da independência de Portugal volta a ser celebrado nos Restauradores. Dependência da UE é vista como natural.

O feriado que celebra a Restauração da Independência de Portugal, em 1640, volta a ser celebrado após três anos de interregno e num tempo em que a dependência financeira externa do país continua a ser forte.

As cerimónias oficiais do 1.º de Dezembro voltam a realizar-se na Praça dos Restauradores e com a presença do Chefe do Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, e do primeiro-ministro, António Costa.

O economista João Duque responde com uma nota de humor à atual sujeição financeira de Portugal ao exterior: "Se fosse essa a razão, nunca seríamos independentes porque estivemos sempre financeiramente dependentes dos outros." O ponto, assinala, é que "a questão extravasa a economia porque, se fosse assim, trabalhávamos todos os dias. Isso tem a ver com uma questão cultural, até porque a maior parte das pessoas nem sabe porque é feriado... é feriado, e é o que lhes interessa".

Duarte Marques (PSD) preferia que os jovens tivessem aulas neste dia e ficassem a saber como se garante a independência e a soberania" do país - que "celebrava tornando-o menos dependente da ajuda externa", insiste o deputado social-democrata. "A independência de Portugal não está em causa por sermos membros da UE, a quem delegou parte da sua soberania."

Pedro Filipe Soares (BE) tem uma perspetiva diferente. Para o líder da bancada parlamentar dos bloquistas, "o 1.º de dezembro de 2016 é um festejo duplo de emancipação. Por um lado, relembra a independência do país de 1640. Por outro lado, é a emancipação da troika e a reposição do feriado que tinha sido roubado pela austeridade".

Mais institucional, Vitalino Canas (PS) frisa que "a celebração da independência continua a fazer todo o sentido, porque é a celebração" da história de Portugal "como nação com identidade própria". Sendo "a interconexão" entre Estados "uma inevitabilidade dos tempos modernos, as relações de dependência mútua também [o são], mas isso não significa que tenhamos perdido a nossa capacidade de autodeterminação como nação", conclui o ex-secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros num governo de Guterres.

Nuno Magalhães (CDS) lembrando que o 1.º de Dezembro deixou de ser feriado "temporariamente e por motivos conhecidos, que pela mão do governo PS de José Sócrates nos fez perder a "independência" de decidir o nosso futuro" ao impor um pedido de ajuda externa, o líder da bancada centrista enfatiza que "Portugal é e sempre será um país independente".

"Cumprir compromissos internacionais legitimamente assumidos e pelos representantes da Nação, com letra grande, nunca será um fator de menorização da celebração da independência nacional", observa Nuno Magalhães, acrescentando que a reposição do feriado marca "o fim de um período histórico, que não deixa saudades e a que não queremos regressar, de dependência externa".

Rui Fernandes (PCP) contrapõe que "Portugal está dependente da existência de uma política que afirme os interesses e as potencialidades nacionais, a política patriótica e de esquerda que o PCP propõe".

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