Reconhecer quem se dedica a ensinar

O DN lançou no início de outubro a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores docentes, com a ajuda das comunidades educativas. O projeto tem sido explicado aos leitores e continuará a sê-lo. Hoje lançamos uma série de entrevistas relacionadas com a ideia. A Interlocutora é Isabel Alçada, ex-ministra da Educação.

É mais difícil ser hoje professor em Portugal do que há 20 ou 30 anos?

Julgo que sim, que é mais difícil, porque as escolas têm uma diversidade de alunos muito grande. Há décadas, quando éramos alunos, havia infelizmente muito mais abandono escolar, crianças que saíam da escola muito cedo e não estavam na escola a solicitar o empenho dos professores para fomentarem a sua aprendizagem. Há uma evolução positiva, porque estão todos na escola. E é importante que no secundário alarguemos a escolaridade a todos. Mas coloca mais desafios porque a diversidade é maior.

Conseguimos dar resposta a toda essa diversidade numa mesma escola?

Sem dúvida temos de dar resposta a todos numa mesma escola. Há estudos que demonstram que não deve haver segregação, deve haver diferenciação. Numa mesma escola deve haver respostas alternativas. Desde as Necessidades Educativas Especiais, atendendo às suas necessidades específicas, a toda uma diversidade que é difícil coadunar com o nosso modelo: ano de escolaridade e turma. Muitas vezes os jovens estão num nível alto numas matérias e baixo noutras. Há países no Norte da Europa que constroem turmas de geometria variável. Em Portugal também temos exemplos, como o "Projeto Fénix" e a "Turma Mais". Por isso é importante dar autonomia às escolas. Mas se segregamos por níveis em tudo acabamos por segregar por baixo.

O relacionamento entre alunos e professores também mudou?

Na nossa sociedade, o relacionamento entre adultos e crianças é diferente do que era há décadas. Há maior horizontalidade, com vantagem na abertura, na reciprocidade, mas com o contraponto de por vezes os mais novos não considerarem que devem respeito aos mais velhos. E isso dificulta muito a tarefa aos professores. A autoridade da escola está nos adultos e isso não ser reconhecido intrinsecamente dificulta. Às vezes os jovens e as crianças não aceitam o que o professor lhes diz. Por outro lado, embora seja positivo haver na sociedade uma atitude crítica, por vezes, em casa, as famílias não ponderam antes de emitirem críticas à escola junto dos filhos ou netos. Isso pode ser negativo, porque afeta a imagem que o aluno tem da escola e do professor.

É importante distinguir os bons professores, como o DN pretende fazer?

Desejo que a iniciativa tenha muito sucesso. É importante que a nossa sociedade reconheça publicamente o esforço e o trabalho das pessoas que se dedicam à educação. Se houver uma relação positiva entre a família e a escola, a sociedade e as instituições, é muito mais fácil os profissionais adquirirem forças para continuarem o seu trabalho. Ao contrário de outras profissões, os professores não veem um retorno imediato do seu trabalho. Parece-me adequado premiar bons exemplos para que os professores sintam a profissão reconhecida.

O que define para si um bom professor?

Um professor deve ser uma pessoa com conhecimentos sólidos da matéria que ensina, em primeiro lugar, seja qual for o nível. Dominar a matéria significa que sabe simplificar de forma a tornar acessível. Muitas vezes as pessoas explicam mal porque não sabem o suficiente. Têm de estar atentos, ter capacidade de audição e atenção às crianças, conseguindo diferenciá-las no grupo, sem as excluir. Dar atenção a todas sem esquecer as diferenças de cada um. É difícil.

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