Reavaliação de colecção dispendiosa para o Estado

O comendador Joe Berardo afirma que uma reavaliação da sua colecção de arte contemporânea é extemporânea e só faria sentido se o Estado Português a quisesse comprar, um cenário que considera improvável devido à actual situação financeira do país.

"Se alguém quer fazer uma avaliação da colecção tem que falar comigo e primeiro têm que dizer quem vai pagar, porque se não têm dinheiro para pagar as despesas do museu como vão pagar a reavaliação", disse o coleccionador à agência Lusa.

O comendador salienta que uma reavaliação pode custar "até nove milhões de euros": "Se o Estado não tem dinheiro para pagar os ordenados e aumenta os impostos como poderia assumir essa responsabilidade", questiona.

Explica ainda que uma reavaliação "sai muito caro, variando o custo entre um e três por cento do valor da colecção" e referiu que os seguros podem "custar até mais 196% quando as peças, que são únicas, são emprestadas ou saem do museu".

Apontou que a Sotheby's recusou fazer a reavaliação pedida pelo Governo por não haver o acordo necessário entre as partes envolvidas. Sobre a possibilidade de outra leiloeira avançar, Berardo frisou que só colocaria hipótese de uma intervenção deste tipo da parte de "uma instituição credível".

"Não quero uma reavaliação para vender a colecção. Acho que é a grande diferença que existe, temos um contrato que diz que Governo tem o direito de comprar a colecção por aquele preço em 2016", destaca o coleccionador, sublinhando que teriam que "ser avaliados todos os quadros, o que não pode ser feito por telefone" e que a última "levou três meses" a fazer.

Berardo critica também o Governo e o actual secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, por "manipular os media", e considera que toda esta polémica em torno da reavaliação da colecção "não é só um problema de comunicação, mas de desconhecimento, porque as pessoas têm que ler o que está escrito" no acordo assinado em 2006 entre as partes.

"Tenho sete cartas escritas ao primeiro-ministro e até hoje a única comunicação que tenho tido é pela via dos media", sublinha.

Indicou ainda que está marcada para hoje uma reunião do conselho de fundadores do Museu Colecção Berardo, frisando que os anteriores titulares da pasta da Cultura "tentaram mudar coisas, mas esquecem-se que há uma lei promulgada pelo Presidente da República e aquilo [a colecção] não pertence ainda ao Estado".

Berardo recorda que as negociações que levaram à instalação do Museu Berardo em Portugal duraram uma década, e "só no fim, quando a colecção quase ia para França, foi abreviada, e essa lei tem que ser respeitada pelas partes".

Considera ainda que o actual secretário de Estado da Cultura, ao classificar este acordo de "danoso" está a chamar "incompetentes" a todos os governantes envolvidos e ao Presidente da República que ractificou o documento.

"Se acha que é danoso para Portugal, então que diga qual a alternativa... a não ser que queiram fechar o Museu Berardo, porque realmente quem não tem dinheiro não tem vícios", opina.

Joe Berardo reafirma que apesar do compromisso escrito do Governo da República, o museu ainda não recebeu os 500 mil euros em dívida até ao fim do segundo trimestre, o que demonstra que "é mau pagador".

Devido a esta situação, alerta os portugueses que não sabe se vai poder manter as entradas gratuitas no museu, aconselhando a que o "visitem o mais rápido possível".

"Começo a sentir que fiz um grave erro em procurar as minhas raízes", desabafa Joe Berardo, criticando ainda Cavaco Silva por "nunca ter visitado o Museu Berardo, que é considerado uma referência cultural nacional e internacional".

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