Raquel Varela: "As pessoas estão cada vez mais sozinhas"

Coautora do livro Do Medo à Esperança, a historiadora Raquel Varela diz que a solidão é um problema cada vez maior em Portugal, o que conduz a um aumento das depressões. Defende que nem os animais de companhia nem um local de trabalho com muitos empregados faz que as pessoas deixem de se sentir sós, porque o bem-estar está dependente de relações de cooperação.

Quando lançou o livro Do Medo à Esperança, em 2016, alertou o país para o facto de os portugueses estarem mais solitários. É um problema que se tem vindo a agravar?

Muitíssimo. Isto tem que ver com duas grandes mudanças: a transição de uma sociedade rural para uma sociedade urbana, o que significa também a passagem de núcleos familiares maiores para núcleos muito pequenos; e relações competitivas nos locais de trabalho, já que as pessoas cada vez mais trabalham em competição umas com as outras. Estes fatores são determinantes da solidão, que tem um papel muito importante no alastramento da depressão.

De que forma é que provoca depressão?

Nós somos seres gregários. Claro que este não é o único fator que contribui para a depressão, porque este é um fenómeno complexo, mas é um dos fatores essenciais. Se deixar um cão sozinho, ele fica triste. O que se passa é que, muitas vezes, as pessoas podem estar com outras à volta, mas estão profundamente sozinhas, porque não têm relações de cooperação, gregárias. E a cooperação cria hormonas do amor, enquanto a competição cria hormonas de agressividade.

E que outras consequências tem a solidão?

Toda a solidão é má. Estar só e ter momentos para si deve ser valorizado. Mas a solidão tem um carácter patológico. Provoca um mal-estar social. Numa sociedade mais gregária a cooperativa, as pessoas cansam-se menos, porque dividem mais as tarefas. E também há consequências no Serviço Nacional de Saúde, nas taxas de adoecimento. Não é por se ter gatos ou cães que se deixa de estar só, nem por ir para um trabalho onde há muita gente, quando o objetivo é destruir o colega do lado.

Os animais ajudam a combater a solidão?

Sim, mas são animais de companhia. Uma coisa é companhia, outra são relações. As relações com animais são de poder, não são relações entre iguais. Os animais são alimentados por nós, existe uma relação de dependência. Os casais amam-se de igual para igual. Precisamos de cuidar e de ser cuidados. Isso cria uma enorme força anímica, um enorme bem-estar.

Estamos mais ligados do que nunca, mas a solidão é, no entanto, cada vez maior...

Exatamente. Isto tem que ver com o modo de produção capitalista, em que as pessoas vivem como abelhas, com muito pouco tempo livre, com avaliação de desempenho e competição no trabalho. As pessoas estão cada vez mais sozinhas, apesar de muito conectadas através de máquinas.

As máquinas roubam tempo às relações humanas?

É terrível, porque estamos num processo regressivo histórico de aumento de horário de trabalho e intensificação do mesmo, em que as pessoas até podem ter tempo para comunicar por WhatsApp ou Facebook, mas não têm tempo para fazer amor. Chegam a casa exaustas, sós.

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