Na secundária do Restelo há que trabalhar pela nota

A melhor pública dos rankings do DN explica o seu sucesso com uma cultura de exigência, associada a um acompanhamento atento e ao envolvimento dos pais. Alunos de todo o concelho de Lisboa lutam para lá entrar no secundário

Há vários anos que a Escola Secundária do Restelo andava entre as melhores públicas do país. Desta vez, nos rankings do DN, chega mesmo ao primeiro lugar. Mas nem por isso direção, professores e alunos embandeiram em arco. Trabalhar pelos resultados, explicam, é uma regra que todos estão prontos a aplicar desde que atravessam os portões pela primeira vez. E alcançá-los significa apenas que se está a cumprir os objetivos.

"É claro que temos muitos bons alunos, aliás eles procuram esta escola, e também somos muito apoiados pelo s professores. Mas 90% da nota é muito trabalho", resume Mariana Rebelo, aluna do 12.º ano, que se projeta a deixar o país dentro de algum tempo para estudar Ciências Forenses.

Com uma média "entre o 12 e o 14" a Matemática, declara-se "uma aluna fraca" a esta disciplina, por comparação com a média de outros colegas. "Há outras disciplinas onde tenho 18 e 19", explica. Mas paradoxalmente, acrescenta, "é talvez a disciplina em que me sinto mais forte. Sinto-me muito bem preparada para enfrentar os exames nacionais de Matemática, porque sei que com o trabalho que faço aqui tenho boas possibilidades de chegar a um exame e ter um desempenho que me garanta uma nota alta", explica.

"Habituamo-nos desde cedo a trabalhar muito", reforça Manuel Limbert, que faz neste domingo 17 anos. "Não é um ensino fácil: temos de nos esforçar todos os dias, fazemos muitos trabalhos de casa, mas também somos muito apoiados", acrescenta. "Há um e-mail da turma em que os professores estão sempre a introduzir tópicos para nos ajudarem a preparar o trabalho na sala de aula", ilustra o aspirante a estudante de Gestão.

"A nossa professora de Matemática está sempre disponível para nós. Às vezes arranja aulas extras, fora do seu horário, para nos ajudar", acrescenta Higino Melo, de 18 anos, que pretende seguir carreira militar, na cavalaria ou nos comandos. "Entrei aqui no 10.º ano e ao início a adaptação não foi fácil", assume. "Vinha de um colégio, onde o apoio era mais individualizado. Aqui tive de aprender a trabalhar mais sozinho."

Veja em que lugar está a escola dos seus filhos

Júlio Santos, diretor da Secundária do Restelo, garante que nenhum aluno vai para lá ao engano: todos sabem o que é esperado deles. "Damos conta do perfil que pretendemos: um aluno que está interessado numa escola com rigor, exigência", diz, explicando que esta é uma escola "fundamentalmente orientada para a prossecução de estudos". Ou seja: para alunos que pretendem entrar no ensino superior.

No entanto, garante, a exigência não é um fim em si mesmo mas mais uma ferramenta que contribui para os resultados: "Focamo-nos também em garantir uma boa preparação dos alunos e temos uma preocupação humanista muito grande, centrada sempre na pessoa. A pessoa tem de se sentir bem, caso contrário dificilmente terá bons resultados", explica.

Famílias com habilitações altas

O papel das famílias dos alunos também é importante. Apesar da origem "muito diversificada" dos estudantes, que chegam até de outros concelhos, como Sintra e Cascais, os pais têm em comum as habilitações literárias elevadas por comparação à média da população: "Cerca de 50% têm cursos superiores. E isso faz a diferença na relação que têm com a escola, na forma como acompanham os seus filhos", explica.

De resto, defende, "sem esse envolvimento de todos não se pode alcançar bons resultados. As escolas e os professores têm um papel profissional, mas há muitas outras dimensões que contribuem para o sucesso", explica.

Alcançar o primeiro lugar dos rankings das escolas públicas é por isso "um indicador interessante", cujo mérito partilha com a comunidade escolar. Não resume o trabalho quotidiano de uma escola, defende, mas não deixa de ser importante: "O exame é mais uma etapa a que os alunos têm de se submeter. Mas é importante, até porque é valorizado, nomeadamente para o ingresso na faculdade que pretendem."

"Não inflacionamos notas"

A exigência que caracteriza a escola nem sempre tem merecido elogios. Recentemente, a Secundária do Restelo surgiu numa lista de escolas que, de acordo com o Ministério da Educação, acabam por penalizar os alunos na nota interna, face às classificações atribuídas por outras escolas que acabam por ter classificações iguais ou inferiores nos exames nacionais (ver página 23).

Mas Júlio Santos refuta as conclusões desse Indicador de Alinhamento das Classificações Internas no que respeita à escola que dirige. "Os dados mostram que as nossas classificações internas são em média superiores às de exame", defende. Há é outras escolas que dão classificações internas muito superiores. Não nos peçam para inflacionarmos as notas", desabafa.

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