PSD e CDS fazem as pazes para cerrar fileiras no ataque ao governo de Costa

Rentrée afastou-os, mas reaproximação será consumada no arranque da sessão legislativa. Vai haver troca de informação privilegiada no Orçamento. Caso é desvalorizado: "Desentendimento pontual como nas famílias"

Após atropelos e arrufos no arranque do ano político, PSD e CDS esvaziam o balão do caso da sobreposição de discursos de Passos e Cristas, que criou um mal-estar à direita. E vão fazê-lo no sítio onde habitualmente se dão melhor: no Parlamento. O acerto vai voltar já no Orçamento do Estado para 2017, onde os partidos - mesmo com estratégias diferentes - vão trocar informações privilegiadas sobre o assunto.

Dirigentes de ambos os partidos querem reduzir a "caso isolado" o acontecimento de anteontem no encerramento das respetivas escolas de formação e cerrar fileiras na Assembleia da República contra a esquerda.

O líder parlamentar do CDS afirmou ao DN que as "relações com o PSD têm sido boas e vão continuar a ser na próxima sessão legislativa." Nuno Magalhães explica que "apesar de já não estarmos coligados, por uma questão de lealdade, há troca de informação e transparência entre os dois grupos".

Nuno Magalhães diz mesmo que os dois partidos "têm de valorizar o que os aproxima" e lembra que também há desentendimentos pontuais "nas relações pessoais e nas famílias".

Um vice-presidente da bancada do PSD destaca que "não vale a pena criar um caso" e acrescenta que "a relação que existe com o CDS é muito boa e vai continuar a ser".

O líder da bancada centrista admite que "já não é tudo planeado ao milímetro como quando estávamos no governo", mas ambos os partidos sabem sempre o que um e outro vão votar no plenário e nas comissões parlamentares.

O mesmo vai acontecer em questões como o orçamento do Estado para 2017 - que vai marcar o arranque do ano político. É certo que os partidos têm estratégias diferentes: o CDS já anunciou propostas para o Orçamento, o PSD não abre o jogo, mas não quer ser "responsabilizado" por nada ("Tirem o cavalinho da chuva", nas palavras de Passos Coelho). Apesar disso, as bancadas da direita saberão sempre antes da esquerda como a outra vai votar ou que propostas vão apresentar.
O que importa é desgastar ao máximo o governo de António Costa e ambos os partidos perceberam que, juntos, fazem-no com mais eficácia.

As primeiras páginas dos jornais privilegiaram ontem o facto de PSD e CDS terem-se desentendido quanto à hora dos discursos. O ataque ao governo e o que ambos queriam destacar ficou longe dos títulos e o caso do desentendimento roubou minutos nas televisões e nas rádios. Ou seja: não foi bom para Passos Coelho nem para Assunção Cristas.

Ao perceberem que nada têm a ganhar com - como disse um dirigente do PSD ouvido pelo DN - "casos e casinhos", os dois partidos vão continuar a tentar concertar a intervenção política. Há que evitar a rutura que o líder parlamentar do PS, Carlos César, chamou de "caranguejola", em resposta ao rótulo de "geringonça" colado à esquerda.

Um vice-presidente da bancada PSD diz mesmo que "não vale a pena entrar em guerras: temos agendas políticas muito parecidas e temos mais a ganhar em entender-nos do que o contrário".

Uma outra fonte próxima da direção nacional do partido destaca que "numa altura em que é impossível conversar com o PS, torna-se importante que as coisas não fiquem crispadas com o CDS. Ter um amigo no Parlamento é melhor do que não ter nenhum".

Uma outra fonte próxima da direção nacional tenta desvalorizar ainda mais o caso, dizendo que "as agendas dos dois líderes vão continuar a ser concertadas. É do interesse dos dois". E dá mesmo um exemplo em que esse trabalho de coordenação correu bem.

No dia 2 de setembro, as equipas de Passos e Cristas sabiam que ambos iam estar na Feira Agrícola - Agrosemana, na Póvoa do Varzim, e concertaram as horas de chegada e a altura em que cada um falava à comunicação social. E mais: Passos até atrasou a saída da feira para cumprimentar a líder do CDS.

Os dois líderes mantêm uma ótima relação e não só falam várias vezes ao telefone, como trocam mensagens e reúnem com frequência.

A relação ainda é mais próxima entre os líderes parlamentares. Nuno Magalhães é claro a dizer que não tem "nenhuma razão de queixa de Luís Montenegro" e que só não têm falado no último mês porque estiveram ambos de férias.

De resto, a relação é a mesma de sempre: conversam muito e afinam tudo o que há para acertar dentro da "autonomia" que cada partido tem.

Já quando ambos os partidos eram governo, PSD e CDS se davam melhor na Assembleia da República do que entre os governantes.

A pressão para o apoio a Assunção Cristas numa eventual candidatura à câmara de Lisboa e o desacerto de domingo deixaram as coisas tremidas, mas a ordem agora é para que ambos continuem a ser "parceiros privilegiados".

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