Professores em idade de reforma tentam um lugar nas escolas

Saídas do ensino privado e cada vez menor renovaçãodos quadros tem levado ao aumento da idade dos contratados

Elísio Waldesanto e Silva tem 74 anos e reformou-se compulsivamente aos 70, ainda à procura do sonho de entrar nos quadros do Ministério da Educação (ME). Não conseguiu. "Tive contratos de 1990 a 2011 - houve um ou outro ano em que não fiquei colocado - e nunca entrei no quadro. No último ano ainda ia e vinha todos os dias da Tocha para Coimbra [84 quilómetros]. Era muito cansativo", recorda o antigo professor de Educação Tecnológica. Tal como Elísio que chegou à reforma sem nunca entrar nos quadros, neste ano houve 159 professores com mais de 60 anos candidatos a um contrato. Destes apenas 43 acabaram por ter lugar nas escolas.

Este é o resultado, segundo Luís Lobo, da Fenprof (Federação Nacional dos Professores), do "progressivo envelhecimento que se tem registado desde 2005. Mesmo nos quadros, menos de 500 têm menos de 30 anos. E nos contratos é a mesma coisa, muitos dos que entram na norma-travão têm mais de 20 anos de serviço. Já é um tempo de serviço muito elevado. Depois como nem sequer entram nos quadros professores para compensar os que saem por reforma, os contratados vão acumulando tempo de serviço fora dos quadros".

A que se somam os "professores que fizeram toda a carreira no ensino privado e que agora como concorrem em igualdade no concurso do ministério mudam de sistema", aponta o presidente da Associação Nacional de Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo. Regime de igualdade implantado pelo anterior ministro Nuno Crato, e que é contestado pelos contratados que sempre optaram pelo sistema público de ensino - "apenas porque ao longo dos anos o Estado nunca integrou quem tinha contratos sucessivos, como os privados eram obrigados a fazer", critica César Israel Paulo.

Isso mesmo mostram os dados recolhidos por Arlindo Ferreira, professor e autor do blogue Arlindovsky. Estes candidatos concorreram na 2.ª e na 3.ª prioridades, ou seja, são professores que nos últimos seis anos fizeram pelo menos um ano no ensino público ou cooperativo, ou que nesse período não trabalharam em escolas públicas ou do ensino cooperativo.

Mas principalmente serão professores que regressaram ao ensino depois de outras opções de vida ou começaram mais tarde a dar aulas, adianta Arlindo Ferreira, que analisou as idades dos mais de 30 mil candidatos no último concurso de professores, dos quais ficaram colocados 7306. Isto porque estes professores têm em média "13 anos de carreira", quando se tivessem estado sempre nas escolas, mesmo nas privadas, teriam "à volta de 30 de serviço", explica.

Desde 1990 a lutar pelo quadro

Foi isso que aconteceu a Elísio. O cabo-verdiano trabalhou em Portugal até ao 25 de Abril "como técnico agrícola dos serviços oficiais", depois regressou ao seu país onde ficou até os filhos entrarem para a universidade.

"Regressei a Portugal e a minha mulher era já professora dos quadros. Eu tentei sempre entrar nos quadros, mas só consegui lugar como contratado", indica. O docente, que deu aulas de educação tecnológica, agropecuária e jardinagem, fixou-se em Coimbra, onde a mulher e os filhos ficavam durante a semana e ele percorria o país - "de Ourique a Castro Daire" - até ter sido reformado compulsivamente aos 70 anos. "Tentei sempre porque o salário de professor dos quadros é diferente do de contratado", justifica. O que permite uma reforma melhor.

É essa melhoria salarial que faz que muitos docentes não desistam de entrar nos quadros mesmo quando já têm idade para a reforma. "Nos últimos anos até já os meus filhos me diziam para desistir de dar aulas", admite Elísio Waldesanto e Silva.

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