"Pareciam bolas de fogo"

Em Vila Nova chora-se a morte de quatro pessoas. Ninguém tem memória de um incêndio destas dimensões. "Em poucos minutos, ardeu tudo." Houve casas e carros destruídos pelas chamas, animais carbonizados, colheitas de outono reduzidas a cinzas. Um cenário desolador, numa localidade que amanheceu sob um intenso manto de fumo

"Estávamos completamente cercados pelas chamas. Parecia que estavam a lançar bolas de fogo." É assim que Isabel Ribeiro, de 42 anos, recorda o momento em que se apercebeu do incêndio na localidade de Vila Nova, na freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela (distrito de Viseu), onde as chamas mataram quatro idosos na noite de domingo para segunda-feira. "Ouvíamos pessoas a gritar por todo o lado: há fogo, acudam!" Passavam poucos minutos das 23.00. Era urgente acordar os vizinhos, que, por norma, se deitam cedo. "Batemos nos portões e tocámos às campainhas. Esticámos mangueiras e tentámos ajudar-nos uns aos outros. Se não fosse assim, não sei como teria sido."

Um manto de fumo cobria a localidade de Vila Nova ontem ao final da manhã. Poucas pessoas na rua, um rasto de destruição. Casas queimadas, barracões reduzidos a cinzas, cães a vaguear pelas ruas. Rostos cansados, lavados em lágrimas. Corpos exaustos, depois de uma longa noite de combate às chamas. "Não havia bombeiros. Liguei, liguei, mas ninguém atendia. Depois pensei que estávamos por conta própria", lembra Isabel. Dizem-nos que terão chegado já pela manhã, mas ninguém sabe precisar horas.

"Mas nem um batalhão de bombeiros conseguia controlar o fogo. Pareciam bombas de napalm. Foi medonho. Em escassos minutos, ardeu tudo", diz ao DN um habitante da aldeia, enquanto as lágrimas lhe caem pelo rosto. "Em 67 anos, nunca vi uma coisa assim. Foi uma catástrofe." Perdeu canastros cheios de milho, alfaias agrícolas, galinhas. Viu a quinta de um familiar ser consumida pelo fogo. "Mas o pior são as vidas humanas."

Laurinda Anjos Lourenço, de 62 anos, o marido, Fernando de Jesus Lourenço, de 71, e a irmã deste, Arminda Lourenço, de 78 anos, estariam a dormir quando as chamas devoraram a habitação onde viviam. "Quando fui chamar pelo Fernando, o telhado já tinha caído", lamenta o vizinho.

Maria Rosa, de 93 anos, foi encontrada sem vida na via pública. Quatro mortos numa aldeia "onde os novos já não querem viver" e onde ninguém tem memória de um incêndio destas dimensões . "O fogo chegou por todos os lados, estava a cercar-nos. A velocidade com que se propagou é indescritível."

No carro de mão, Isabel leva um saco de batatas para oferecer a uma vizinha. "Perdeu todos os bens agrícolas e o cão, que estava preso e não conseguiu fugir." Também houve quem fosse encontrar vacas, porcos e ovelhas carbonizados. Tal como tratores, máquinas e alfaias agrícolas desfeitas. "Eu não tive estragos, mas foi uma noite de grande sofrimento. Consegui tirar os meus pais de casa, que já estava a começar a ser consumida pelas chamas. Ainda se estragaram os vidros e as persianas."

As nódoas negras e os arranhões nos braços são a prova de uma noite infernal. "Foi de andar a tirar baldes de água do tanque." Era a forma que tinham de proteger os bens. "Molhámos tudo. Mas depois faltou a luz e a água da rede. Não havia nada", lamenta. Embora tenha tentado manter sempre a calma, Isabel reconhece que houve momentos em que o pânico tomou conta de si. "Havia tantas fagulhas no ar. Eu sentia-as a bater no corpo. Houve uma altura em que desesperei e virei um balde de água por cima de mim", lembra.

Resta aos moradores a solidariedade entre vizinhos. Quem tem furos, dá água; quem tem geradores, deixa que os vizinhos carreguem os telemóveis. Em época das colheitas de outono, dizem os habitantes de Vila Nova que "toda a gente ficou com algum tipo de prejuízo". De acordo com o último balanço da Autoridade Nacional de Proteção Civil, Viseu foi o distrito onde se registaram mais vítimas mortais: 19 em 38.

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