Para encontrar o PS teve de o procurar nas Páginas Amarelas

João Torres, líder cessante da JS, revisita em conversa com o DN o seu percurso estudantil, profissional e político. Da Maia (Porto) a São Bento foram 13 anos de distância

A educação que recebeu dos pais foi de esquerda mas nada na sua família o puxava especificamente para o PS ou para a sua organização de juventude, a JS. O pai, engenheiro eletrotécnico, lutou contra a ditadura e depois do 25 de Abril inscreveu-se no MES (Movimento da Esquerda Socialista, por onde andaram personalidades como Jorge Sampaio ou Ferro Rodrigues) mas desde os anos 80 do século passado que se deixou de militâncias.

Estamos em março de 2002. O PS, liderado por Ferro Rodrigues, perdeu (para o PSD de Durão Barroso) as eleições legislativas. João Torres, com 15 anos, quase 16, frequentava o 10.º ano, na Escola Secundária da Maia (distrito do Porto). Ele e um amigo - hoje piloto da TAP - passavam o tempo a falar de política. E decidiram inscrever-se na JS.

Só que foi difícil. "Não tínhamos a mais pequena noção de como funcionavam a JS ou o PS." Foram a uma sede na Maia mas estava abandonada; foram a outra e estava fechada. O estudante faz então uma coisa "hoje impossível": "Sentei-me no sofá da sala de minha casa a consultar os contactos do PS do Porto nas Páginas Amarelas." Lá foram e lá acabaram por se inscrever. "Chegámos lá e dissemos: "Olhe, nós queremos ser militantes do PS." Foi uma coisa muito pura, muito genuína." Conheceram o então presidente e a então vice-presidente da estrutura distrital portuense da JS, Gustavo Carranca e Glória Araújo - que tempos depois disputariam um contra o outro a liderança.

Uns meses depois de inscrito, Torres recebe um telefonema de Carranca, que lhe pede para ativar a JS na Maia. E aí se inicia um percurso na organização: primeiro coordenador de um núcleo de residência da JS; em 2007, presidente da concelhia da Maia; em janeiro de 2010, presidente da federação da distrital do Porto; e em 2012 líder nacional, sucedendo a Pedro Delgado Alves.

Em 2015 foi eleito deputado, pelo círculo do Porto. Se voltará a ser convidado para as listas de candidatos a deputados nas próximas legislativas é algo que não sabe.

O percurso de Torres não inclui no entanto uma caminhada tradicional em quem chega ao PS via JS: o associativismo estudantil. E não foi porque não houvesse apelos. Houve, só que o jovem militante recusou. Digamos que havia na sua família uma certa "expectativa" para que se licenciasse. E assim fez, na Faculdade de Engenharia do Porto. Terminado o curso, empregou-se, durante mais de um ano, numa empresa de obras públicas da Póvoa de Varzim, que deixou para se dedicar a tempo inteiro à política. Ter uma formação e já ter estado no mercado de trabalho dá-lhe uma rede que muitos políticos não têm: "Gosto de políticos profissionais mas não gosto de profissionais da política. De pessoas que fazem tudo para se manter na política."

Se o futuro politicamente não lhe sorrir é à engenharia que regressará. Mas se isso acontecer será uma exceção, no quadro dos ex-líderes da JS. Dos dez, só três não estão no ativo: o primeiro (Arons de Carvalho), o segundo (José Leitão) e o quinto (António José Seguro). De resto, todos os outros ocupam cargos políticos, ou no governo (Margarida Marques, José Apolinário e Pedro Nuno Santos), ou no Parlamento (Sérgio Sousa Pinto, Jamila Madeira, Pedro Delgado Alves) ou no poder local (Duarte Cordeiro, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa).

A sucessão na liderança da JS que se consumará neste fim de semana no XX congresso da organização, na Póvoa de Varzim, será, mais uma vez, uma sucessão na continuidade e de candidatura única, no caso de Ivan Gonçalves, também já deputado.

João Torres deixa a JS com 34 mil militantes inscritos - o que, segundo garante, faz desta a maior organização política de juventude. E, segundo sublinha, não só é a maior como a que está mais bem distribuída pelo país ("até temos militantes na ilha do Corvo") e, principalmente, "é a mais interclassista" - ou seja, "reflete o país". Ideologicamente, continua "obviamente à esquerda do PS". Na moção de Ivan Gonçalves, introduz-se a defesa de uma nova causa fraturante, a que o PS resiste, a defesa da legalização da eutanásia.

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