"Os progressos conseguem-se com exigência. Não com laxismo"

A redução do abandono escolar mostra os progressos da Educação em Portugal. Para o antigo ministro as politicas seguidas deram frutos

Em silêncio desde novembro no que diz respeito às políticas para a Educação, o responsável da pasta no Executivo PSD-CDS/PP, Nuno Crato, comenta os dados sobre o abandono escolar. Em entrevista por email defendeu as suas políticas e recusou comentar, para já, as mudanças do ministro Tiago Brandão Rodrigues em relação a decisões que tomou nos quatro anos em que esteve no governo. Mas não resiste a deixar algumas críticas.

Em quatro anos o valor do abandono escolar caiu de 23 para 13,7%. Como ministro da Educação durante esse período que analise faz destes números?

Todos nos devemos congratular pelos enormes progressos conseguidos pela Escola portuguesa nos últimos anos, nomeadamente com este que agora acaba de ser verificado: a grande redução do abandono escolar precoce. É uma redução encorajadora. A prosseguirmos neste ritmo conseguiremos ir além da meta europeia dos 10% para 2020, o que ainda há cinco anos parecia difícil de alcançar.

A que se deve esta redução? Ao alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12.° ano?

Não se deve apenas ao alargamento da escolaridade obrigatória, mas a um conjunto de medidas que permitiram que o alargamento fosse um sucesso. Em primeiro lugar, o esforço dos diretores e professores e o maior acompanhamento dos pais, conseguido graças a um sistema mais aberto e a muito mais informações disponíveis ao público.

Em segundo lugar, o sucesso do alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12.º ano, que se conseguiu com grande sucesso e tranquilidade entre 2012 e 2015 graças a um programa integrado de apoio ao sucesso e de recuperação dos alunos, dando mais créditos horários e mais autonomia às escolas para o acompanhamento especial aos alunos. Em terceiro lugar, a criação de vias vocacionais, que conseguiram recuperar milhares de alunos em dificuldades e garantir-lhes o progresso escolar com os conhecimentos necessários.

Por outro lado foi nesses anos que aumentaram os exames nas escolas. Isso não deveria ser um obstáculo?

Não nos esqueçamos: em 2011 o abandono escolar estava em 23% e agora a Escola portuguesa conseguiu ficar abaixo dos 14%. Este progresso é notável. Foi obtido no decurso de uma série de anos em que o sistema se tornou mais rigoroso e exigente e em que as avaliações em final de ciclo foram sendo reforçadas. Os progressos conseguem-se com exigência. Não com laxismo. As provas finais colocam mais desafios às escolas, para que o progresso nos estudos fosse acompanhado de rigor.

Acredita que é possível chegar aos 10% em 2020?

É uma meta que está ao alcance. Se em quatro anos conseguimos reduzir quase para metade, foi uma redução de quase dez pontos percentuais, certamente que em quatro anos conseguimos reduzir pouco mais de três pontos percentuais para chegar aos 10%. Isto se não se fizerem muitos erros.

Como acabar com os cursos vocacionais e os exames no básico, já anunciados por este governo e indicados por si como elementos para o sucesso deste indicador?

Os cursos vocacionais foram fundamentais para que os jovens prosseguissem os estudos e dessem uma alternativa mais prática aos jovens. Os jovens não são todos iguais em todo o momento, há uns que estão mais maduros e estão preparados para seguir as certas vias e outros que estão mais indecisos e desmotivados. Se não oferecermos alternativas, continuando a dar sempre possibilidade de mudar de percurso e regressar a uma via científico-humanística, mas dando também outras alternativas de prosseguimento de estudos, estamos a prejudicar tanto uns como outros.

Falou de não se cometerem erros, que erros são esses?

Todo o tipo de erros. De uma não valorização da importância da escola, não responder a cada necessidade dos alunos. Quando foi implementada à escolaridade até aos 12 anos um dos objetivos era que houvesse sucesso para todos e isso tem de ser de acordo com as necessidades de cada um e foi conseguido com as medidas de recuperação que foram implementadas e as vias mais profissionais para os alunos mais vocacionados, pelo menos de momento, para essas áreas.

As escolas mostram receios em relação ao fim dos vocacionais e dos exames. Surpreende-o a atitude?

Julgo que as escolas, os diretores e os professores encararam bem o aumento da exigência, porque esta é uma ajuda para fazer um trabalho de rigor com os alunos. Isto acontece porque os diretores e os professores conhecem bem a situação das escolas.

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