Os escultores efémeros que recuperaram a fama

Em 54 edições de Construções na Areia, foram centenas as crianças que passaram pelas praias portuguesas, na ânsia de mostrar o seu talento... e conseguir um prémio mais ou menos valioso.

E, se o destino da maioria dos meninos que passaram pela iniciativa do Diário de Notícias permanece um mistério para muitos, outros há que foram reencontrados pelos holofotes da fama, anos mais tarde. E nem todos seguiram pela via das artes

As construções que deram vida a um sonho

O pequeno Américo Rajão estava a esculpir um soldado na praia da Póvoa de Varzim quando uma mulher, "talvez mão ou avó de um participante", lhe perguntou de que escalão era. O futuro escultor não sabia. Afinal, relatou ao DN em 2007, estava ali, corria a década de 1960, apenas porque vira uns meninos a "brincar" e decidira saltar o muro para se juntar a eles. Voltou no ano seguinte, já inscrito. Com 11, 12 e 13 anos conquistou o concurso.

Ganhar bicicletas "até não poder mais"

Bicicletas "até não poder mais", um gira-discos, um rádio. A jornalista Manuela Moura Guedes lembra-se bem dos vários prémios que, em criança, ganhou em várias edições das Construções na Areia. Uma das participações, contou em dezembro 2005 à revista do extinto 24horas, foi em 1969, na praia de Monte Gordo, no Algarve. No total, sintetizou então, foram quatro primeiros lugares e dois segundos.

Da praia da Póvoa para as Finanças

Foram vários os prémios que o economista Miguel Cadilhe recebeu, na década de 1950, pelas suas esculturas na praia da Póvoa de Varzim: duas bicicletas, máquinas fotográficas e um colchão de borracha, para andar no mar. O tempo apagou da sua memória quais foram as obras de arte que lhe valeram as conquistas, mas nem por isso o ex-ministro das Finanças esquece o espírito que se vivia naquela época. "Era um tempo diferente, as construções na areia entretinham e motivavam os jovens", comparou ao DN em 2007.

O satélite que valeu um colchão de água

Quando, aos seis anos, a gestora Vera Nobre da Costa chegou às areias da praia do Tamariz, no Estoril, estava "fascinada" com o lançamento do satélite soviético, na década de 1950. Não é por isso de estranhar que tenha esculpido um Sputnik com estrelas à roda, como recordou ao DN em 2009. Ao trabalho seguiu-se a conquista de um colchão insuflável. A alegria sentida então pelo feito realizado dura até hoje. "Agora vamos a qualquer loja comprar um colchão desses e é acessível a todos. Mas, naquela altura, não era assim", sublinhou.

Moldar com a mesma arte a areia e as letras

"Ah, como era bom respirar a brisa marinha, pisar a areia molhada, virgem em cada manhã, deixar a minha marca ao lado da das gaivotas! Como era bom comungar com a natureza, acreditar que o mundo não está predefinido, também pode ser criado por nós." Foi na primeira pessoa que a escritora Luísa Ducla Soares recordou nas páginas do DN, em 2007, a época em que esculpiu nos areais da Costa de Caparica "sereias e gente, animais e monumentos, monstros e fadas". Concorreu até ao fim da idade regulamentar. Ganhou dois prémios.

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