O peso da dívida no confronto entre quatro mulheres

Mourão é um concelho envelhecido, onde a dívida da autarquia tem deixado pouca margem de manobra para fazer obra. Todas as candidatas (é no feminino que se faz esta corrida autárquica) olham para o grande lago do Alqueva como maná para mais investimento, com o regadio e o turismo.

É ainda o velho castelo que domina a vila branca de Mourão, paredes meias com o enorme lago do Alqueva, que veio transformar a paisagem deste concelho encostado à vizinha Espanha. "O interior não é uma fatalidade, é uma oportunidade", diz Ana Bravo, candidata independente à frente da coligação Unidos por Mourão (CDS/MPT/PPM). Mas sobram ainda mais fatalidades que oportunidades neste concelho do distrito de Évora.

Mourão sente o peso da interioridade e o da dívida - todas as candidatas (sim, é só no feminino que se faz esta corrida autárquica) o dizem. O município é um dos que integra o PAEL (Programa de Apoio à Economia Local), programa de resgate financeiro que implica constrangimentos. A socialista Maria Clara Safara, professora, 51 anos - que preside à autarquia há quatro anos - reconhece-o: "É uma grande preocupação. A situação financeira foi já uma grande preocupação" no atual mandato. A dívida baixou 1,4 milhões de euros, garante ao DN, mas está nos 10 milhões. "Dentro das condicionantes, mesmo assim conseguimos baixar o endividamento."

É esta a pedra no sapato do atual executivo socialista. A social-democrata Anabela Caixeiro, assistente social, 37 anos, é dura nas palavras: "O PS tem afundado o nosso barco, está à vista de todos, quer pelos números da dívida, quer pela obra que não está feita."

Na mesma linha, a candidata da CDU, Cristina Candeias, 34 anos, com formação em psicologia e escritora, não poupa críticas aos socialistas: "Essa dívida foi criada sem que nada fosse feito, sem criar nada em quase 30 anos de mandatos do PS." E Cristina Candeias desconfia que haja mais, defendendo uma auditoria às contas da autarquia. Por outro lado, argumenta, a dívida tem sido "uma desculpa para não fazer coisas no concelho".

A empresária e economista Ana Bravo, 56 anos, usa outras palavras para descrever o estado das coisas. A palavra que melhor descreve o atual mandato é "inércia", diz. "Inércia total", acrescenta a candidata da coligação Unidos por Mourão, para logo defender que "há coisas que não é preciso dinheiro, é preciso bom senso".

Maria Clara Safara sacode as críticas com o caderno de encargos possível: "Fizemos pequenas obras que não são muitas vezes visíveis." E a presidente da câmara enumera "a obra da praia fluvial", inaugurada em julho, a modernização dos serviços administrativos e financeiros, o fornecimento de equipamento para as escolas, o investimento para acabar com ruturas na rede de água, uma aplicação móvel, para dar a conhecer o concelho, com notícias e eventos. "Com todos os constrangimentos fomos fazendo o que foi possível fazer."

Convicta de que vai ganhar, a socialista espera fazê-lo agora com maioria na vereação e na assembleia. "É muito difícil governar sem maioria na assembleia municipal", justifica, dando como exemplo a "questão da dívida", cuja renegociação acabou chumbada pelos deputados municipais. "Tudo fizemos para que tivéssemos uma renegociação da dívida", com o Fundo de Apoio Municipal.

Esta será uma prioridade para a atual presidente da câmara, se ganhar a 1 de outubro. Maria Clara Safara aponta ainda a promoção turística como uma aposta sua, depois da inauguração da praia fluvial de Mourão. "Notou-se logo uma melhoria na economia local", diz, antes de referir que é preciso terminar esta obra, num momento em que se prepara a abertura de um hotel de 4 estrelas. "É preciso captar investimento para o concelho", insiste, uma senha repetida por todas as candidatas sem exceção. A socialista quer ainda alargar "a expansão do perímetro de rega às freguesias da Granja e Mourão" (está circunscrito à freguesia da Luz).

Também Catarina Candeias olha para o regadio como uma necessidade a cuidar, enquanto identifica uma extensa lista de propostas que a CDU quer aplicar se vencer uma autarquia que lhe foge desde 1993. "Queremos transformar as fragilidades do nosso concelho em potencialidades", insiste, notando a necessidade de "combater o desemprego, erradicar a pobreza e devolver às famílias as condições de vida perdidas". Medidas para o conseguir: aposta nas energias renováveis, num projeto de reciclagem, no turismo e na reabilitação do património, como o castelo.

A atual vereadora do PSD, Anabela Caixeiro, diz que a sua "grande aposta" é na ação social, num "concelho envelhecido e com pouca massa crítica". A criação de um gabinete de ação social, a implementação de um cartão social municipal e uma brigada social (um piquete para emergências) são formas de concretizar esta aposta.

Já a economista Ana Bravo, que deixou Lisboa para se instalar na terra da família, quer alargar a sua experiência como empreendedora no turismo à política: "Quero pôr Mourão no mapa", diz, tornando a vila mais próxima das novas tecnologias, criando mecanismos de investimento em microempresas, apontando a necessidade de uma creche no concelho (não há nenhuma) e, também ela, apostando no regadio das duas freguesias em falta.

E isso de quatro mulheres candidatas, é coincidência ou algo mais? É "mera coincidência", responde quem está na oposição. A atual presidente faz outra leitura: "Sou a primeira presidente de câmara num pequeno concelho do interior. Ter mais três mulheres é porque, no fundo, fazem uma avaliação positiva do meu trabalho."

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