"O fogo foi um ladrão que nos entrou em casa"

Na aldeia da Quinta de São João e na zona industrial da cidade beirã, ontem, ainda se lutava com a incredulidade. Em poucos minutos, as chamas deixaram oito mortos, mais de cem famílias desalojadas e cerca de 400 postos de trabalho ameaçados

O fumo cola-se à pele, invade as narinas, desgasta a visão, mas não é só por isso que Maria de Fátima e Vítor Rodrigues esfregam os olhos como quem tenta acordar de um pesadelo. "Foram 33 anos de trabalho para em, poucos minutos, o fogo levar tudo [gado, alfaias agrícolas, os alicerces do negócio de produção leiteira para queijo da serra e parte da casa onde habitam]", desabafa ela, com a franqueza de quem ficou sem chão. Ali, em Quinta de São João (Nogueira do Cravo), quando as labaredas "se levantaram como um avião" a descolar, espalhou-se um rasto de destruição e morte, comum a todo o concelho de Oliveira de Hospital, um dos mais afetados pelos incêndios que devastaram o distrito de Coimbra ontem e anteontem.

Com pelo menos oito mortos, mais de 100 famílias desalojadas, cerca de 400 postos de trabalho ameaçados, e a quase totalidade da floresta ardida - contas do presidente da Câmara Municipal, José Carlos Alexandrino -, Oliveira do Hospital destaca-se no macabro balanço dos dias em que "o fogo invadiu as terras do povo" sem deixar qualquer margem para reação. Em Quinta de São João, conta-se uma das vítimas mortais: "Um rapaz na casa dos 45 anos, que ia a fugir de automóvel, com a mulher a segui-lo; por algum motivo, voltou atrás, saiu do carro e foi encontrado morto, com uma perna carbonizada", descreve Maria de Fátima. Assim como se desata um fio de destruição sem fim: "O fogo foi um ladrão que nos entrou em casa", lamenta Glória Lobo Peres, outra moradora do lugar, com cerca de 20 habitantes.

Em passo lento e com olhar distante, Glória segue com a irmã , Graça Silva, a fazer o inventário possível do que lhes ardeu. "Foi um terreno com árvores de fruto, lenha que tínhamos guardado para o inverno... e agora vamos ver como ficou um pinhal que temos ali à frente", contam. Coisa pouca, comparado com os lamentos de Vítor Rodrigues: a irmã de casa completamente destruída, "ficou só com a roupa que tinha no corpo"; o irmão sem animais nem arvores de fruto, e ele e a mulher com a casa (andar superior e um anexo) parcialmente destruída e sem sete cabeças de gado, trator, ceifeira, utensílios de ordenha e demais alfaias agrícolas. "O que aconteceu não tem explicação. O fogo chegou em poucos minutos e, sem bombeiros nem mais ajudas, não conseguimos fazer nada", lamenta.

Salvaram-se as "cento e tal ovelhas, de raça bordaleira, autóctone da Serra da Estrela", que era a base do negócio familiar, mas os alicerces estão bem abalados. "Está para ali um balde de leite se préstimo, preto e a cheirar a fumo. E nós nem alimentação temos para lhes dar nos próximos dias - só ração, o resto ardeu tudo. Não sei se eu e o meu marido vamos ter forças para recomeçar... Custa muito perder o resultado de uma vida de trabalho", lamenta Maria de Fátima, baixando o olhar que antes fitava o manto negro que cobre as colinas em volta.

"Por mim não consigo, têm de ajudar"

O cenário desolador estende-se da costa do distrito de Coimbra à zona da beira Serra da Estrela. Às dezenas de casas destruídas e empresas afetadas, nos concelhos do litoral (Figueira da Foz, Cantanhede e Mira) junta-se a somatório de vítimas mortais no interior (pelo menos, duas em Penacova, três em Tábua e quatro em Arganil). O trajeto pelo IC6 mostra a tonalidade do luto que marca a região e o país nestes dias: o negro das terras de ambos os lados da estrada, ainda fumegantes, com um lampejo de fogo ocasional.

A chama ainda flameja nas carcaças da construtora e da carpintaria dos irmãos António e Jorge Gouveia, na zona industrial de Oliveira do Hospital. O esqueleto destes pavilhões industriais é um braseiro sem fim, que ainda brilha, escalda e espanta quem se aproxima, quase 24 horas depois da chegada da primeira labareda. "Quando aqui chegámos, às três da manhã, depois de estar a defender as casas de familiares, já pouco havia a fazer. Tiram-nos isto do coração", lastima-se Jorge. "Foi tudo perdido de um momento para o outro", acrescenta António, lamentando a sorte das empresas familiares - Construções Gouveia & Filho e Gouveia & Costa - Carpintaria Mecânica Civil -, que ao fim de 30 anos têm a sobrevivência (e a manutenção dos postos de trabalho dos 18 empregados) em risco. "Tem de haver ajudas e tem de haver união entre todos, senão não vamos conseguir reerguer-nos", afirma António Gouveia.

O mesmo diz Artur Correia. Ao fim de 59 anos de trabalho ("desde os 11"), 42 à frente da empresa familiar Socorreias, ligada à construção e à eletricidade, não esperava tão rude golpe: "centenas de milhares de euros perdidos em veículos e materiais", após uma noite tão sobressaltada como mostram o automóvel calcinado que se despistou contra o gradeamento das suas instalações ("o rapaz ia a fugir do fogo, felizmente saiu ileso, só com uns arranhões no braço" ou o carcaça de um camião ainda em chamas, metros acima, à beira da estrada. O empresário, que passou a noite a controlar a aproximação do fogo tanto da sua casa como da sede da empresa, ainda evitou o pior em ambos os lados. Mas vê o futuro dos 30 trabalhadores da Socorreias envolto no nevoeiro de fumo que ontem cobria cidade de Oliveira do Hospital: "Só por mim não consigo, têm de nos ajudar".

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