O espião luso com paixão pelas terras dos czares

Carvalhão Gil, o agente que vendeu informação classificada à Rússia, não escondia a paixão pelo património cultural da antiga União Soviética na sua conta de Facebook

Acessível a todos e à mercê da curiosidade de cada um. Mesmo que pareça paradoxal um espião ter uma conta aberta numa rede social como o Facebook, a verdade é que Frederico Carvalhão Gil, detido por vender informações secretas a um agente russo, continuou ativo online até sexta-feira passada, dia 20. Com muita informação disponível e somente à distância de meia dúzia de cliques.

Sintoma de algum desleixo ou o álibi perfeito, quem sabe? Porém, basta fazer scroll down no perfil do agente do Serviço de Informações de Segurança (SIS) para perceber as suas paixões mais vincadas. Com a Geórgia à cabeça, embora o património cultural da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) tenha naquela página um lugar de grande relevo.

Basta a dose certa de tempo livre para encontrar inúmeras referências - mais recentes ou mais remotas, quer através de imagens quer de hiperligações - àqueles territórios. No dia 17, por exemplo, Carvalhão Gil partilhava com o "mundo" um trabalho da artista russa Olga Shirnina (também conhecida por Klimbim) dando cor às fotos da família Romanov. E são várias as imagens de Nicolau II, último czar (morto pelos bolcheviques), e da sua família.

Três dias antes, o espião remetia os visitantes da sua página para um artigo sobre as 12 igrejas mais antigas da Rússia, testemunhos da expressão do cristianismo ortodoxo. Das que permanecem como símbolos do país às que, ainda que milenares, costumam escapar ao olhar dos turistas.
Carvalhão Gil ora partilhava essas informações com base nas publicações de amigos naquela rede social ora ia à origem: páginas russas, uma e outra vez.

Entre algumas fotografias com familiares e amigos, antigas mas não datadas, surgem também referências mais enigmáticas - como fez a 31 de março ao divulgar uma imagem com três cobras, simbolizando a "inveja, ingratidão e traição", que "quando mordem deixam feridas profundas" - e ainda tiradas mais descontraídas. Bom exemplo é o de dia 2 deste mês, em que Carvalhão Gil recomendava que se "fale ilimitado... fale pessoalmente" porque "a melhor operadora... é o encontro". A sugestão coincide com o perfil que é traçado por quem o conhece: um homem culto e inteligente, adepto de boas conversas, longe do recato do seu lar e apreciador de boa comida. E o gosto pela gastronomia georgiana foi sendo aprimorado ao longo dos últimos tempos.

Ao paladar de Carvalhão Gil também não terão escapado os vinhos da Geórgia - onde nasceu Josef Estaline -, conhecida por ter as melhores produções da antiga URSS. Nesse ponto em específico, são variadíssimas as publicações, em jeito de recomendação aos que o seguem.

A 17 de maio, o agente secreto que foi detido em Roma na segunda-feira, depois de meses de uma investigação sensível levada a cabo em conjunto pelo Ministério Público (MP) e pela Polícia Judiciária (PJ), juntava à sua "coleção" de publicações, desta feita em vídeo, a mítica cena na escadaria de Odessa, a quarta parte do filme O Couraçado Potemkine, obra-prima de Serguei Eisenstein, que se estreou em 1925 e retrata a rebelião dos marinheiros num navio de guerra. A revolta, essa, começou com um protesto por terem sido servidas carnes estragadas aos marujos num dos jantares a bordo, e estes reagiram erguendo uma bandeira vermelha e procurando levar a rebelião do couraçado até à sua terra natal, Odessa, cidade dessa Ucrânia onde hoje se combatem separatistas russos.

Monárquico assumido e convicto liberal, Carvalhão Gil não deixa de explorar as redes para satirizar o comunismo. Mesmo cá dentro. Um cartoon de José Vilhena, publicado na Gaiola Aberta, com o "pai" Karl Marx num cadeirão e Álvaro Cunhal (PCP) e Arnaldo Matos (MRPP), caricaturados como crianças, a disputarem a foice e o martelo. "Ó pai, olha o mano que me quer tirar o brinquedo!", afirma Arnaldo Matos, para uma repreensão imediata por parte do autor de O Capital a Cunhal: "Tenha vergonha, seu matulão, deixe lá brincar a criança!"

Seja como for, e voltando ao registo mais sério, não deixa de suscitar curiosidade o interesse de Carvalhão Gil por todos aqueles territórios. Mesmo perante as juras de quem com ele conviveu de que a paixão pelo Cáucaso é genuína. Basta ver que, enquanto agente das secretas, nunca esteve destacado ou responsável por aquela região do globo. Mais: basta olhar para a história para desconfiar de que a aproximação à Geórgia possa até nem ter sido inocente. Anexada desde 1921, após a tomada de Tbilisi por parte do Exército Vermelho - embora o regime só tenha ficado firmemente instalado três anos volvidos -, a Geórgia só restaurou a independência em 1991, pouco antes do colapso da URSS.

Porém, a tensão com a antiga potência mundial continuou e o verniz estalou nesse mesmo ano, graças aos movimentos separatistas na Ossétia do Sul, apoiados pela Rússia. Tal como sucedeu depois na Abecásia.

A guerra russo-georgiana voltou a reacender-se em 2008, tendo as posições das duas nações sido mediadas pela França. Hoje, a Rússia reconhece a Ossétia e a Abecásia como repúblicas independentes e a Geórgia considera-as territórios seus ocupados pelos vizinhos.
À margem destes acontecimentos, são vários os amigos georgianos que Carvalhão Gil não esconde do mundo virtual - e que, aos poucos, vão recebendo com surpresa a notícia de que ele era espião.

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