O desabafo de um governante: "Quando é para correr mal, corre tudo mal"

A frase pertenceu, esta tarde, no Parlamento, ao secretário de Estado da Administração Interna, numa conversa com deputados de todos os partidos sobre incêndios

Jorge Gomes falava em concreto da ajuda europeia que quase não chegou, apesar dos apelos portugueses - no que toca à UE, só vieram dois aviões de Espanha e um do mecanismo central europeu de combate a fogos; chegaram dois outros de Marrocos e poderão ainda vir dois da Rússia.

Segundo explicou, vários países alegaram os seus próprios problemas e dá-se por exemplo o caso de em França toda a frota dos Canadair (aviões pesados) "estar no chão" porque foi detetado um problema num deles que depois se percebeu poder ser comum a todos. "A Europa não foi assim tão pronta para nós", lamentou.

Já em Portugal permanece o problema dos Kamov ("deito-me a pensar nos Kamov, acordo a pensar nos Kamov"), mas o secretário de Estado recusou detalhar a sua opinião alegando estar o caso em segredo de justiça. Mesmo assim confessou que "o contrato foi mal feito". E quanto à Força Aérea nada a fazer porque por ora não tem equipamento que lhe dê possibilidade de ajudar.

Outra das lamentações do secretário de Estado foi com a atuação de alguns tribunais, que, segundo disse, mandam para casa apenas com Termo de Identidade e Residência incendiários apanhados em flagrante delito. "É pouco compreensível o que acontece mas na justiça não me meto, não me levem a mal", disse, referindo que já houve 34 suspeitos identificados ( 27 foram apanhados pela PJ e sete pela PJ).

Neste ponto, Jorge Gomes contou a sua experiência enquanto governador civil de Bragança, durante seis anos, elogiando uma juíza de turno que colocava em prisão preventiva até outubro todos os suspeitos apanhados em flagrante delito. Quanto à origem dos incêndios, o governante insistiu no problema central da criminalidade pura e dura.

"Trinta e cinco por cento dos incêndios são noturnos", afirmou, para sustentar a sua tese (e neste passo contou também que em Águeda houve um fogo florestal que começou em simultâneo numa extensão de cinco quilómetros às quatro horas da madrugada). Segundo as contas oficiais, 40% dos fogos têm "ignição" criminosas. "Há muitos interesses por detrás disto. Há quem diga que a indústria do fogo dá dinheiro a muita gente", afirmou.

Questionados por deputados - numa reunião informal sem conflitualidade política onde até o representante do PSD, deputado Nuno Serra, manifestou "solidariedade" ao bombeiros mas também ao próprio Governo - o governante multiplicou-se em elogios ao empenhamento dos bombeiros, da GNR e dos militares que têm estado diretamente envolvidos no combate aos fogos. O próprio governante recusou criticar executivos anteriores: "Quase não houve alteração nenhuma. O dispositivo [de combate aos incêndios] estava bem feito."

Recusou no entanto dizer que o pior já passou - pelo contrário, "vamos ter uns dias de mais severidade" porque vêm aí dias novamente muito quentes e "depois há o vento, que é sempre um problema" porque espalha os incêndios por quilómetros e quilómetros de distância dificultando tremendamente a ação de combate aos fogos. "Houve sítios com rajadas de mais de 100 km/hora", contou. "A meteorologia não vai ajudar nada. Os próximos dias vão ser críticos."

Segundo admitiu, o contingente de bombeiros envolvidos - dez mil operacionais profissionais "que revelaram "uma grande capacidade de resposta e de mobilização" - "está exausto". "Precisamos de parar um dia, o nível de rendições [substituição de efetivos] não tem sido suficiente."

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