O apoio ao PS: a sombra que ronda os congressistas

A viabilização de um governo minoritário do Partido Socialista, que eventualmente saia das legislativas de 2019 e foi admitida por Rui Rio durante a campanha interna, é o principal ponto de discussão entre militantes. Congressistas dividem-se entre os que já entenderam tudo e os que querem clarificações do presidente

"União", "alternativa" e "clarificar" eram, à entrada do 37º Congresso do PSD as palavras mais repetidas entre os delegados que iam chegando, quando questionados sobre o que esperavam para o partido, com a nova liderança. Mas os discursos estavam longe da sintonia. A viabilização de um governo minoritário PS, que eventualmente saia das próximas legislativas, admitida por Rio durante a campanha, continua a incendiar os militantes. O partido ainda entrou no congresso dividido, como geograficamente ficaram separados nas eleições Rio e Santana Lopes e muitos delegados já sonhavam com um "não" imediato ao próximo Orçamento do Estado (OE), para 2019.

Nem era preciso perguntar quem apoiou quem. Havia aqueles que já entenderam perfeitamente o que Rui Rio quer para o partido e para o país e outros que exigiam clarificações. Os primeiros, claro, foram apoiantes do presidente eleito nas diretas, os segundos, não. José Pracana, presidente interino do Conselho de Jurisdição do PSD, previa "dias intensos de discussão" e queria ter garantias que o partido "não vai alinhar na artilha de alianças com o PS, pois é muito importante que o país saiba que há uma fronteira entre a esquerda e a direita". Também entende que a nova direção deve deixar para trás qualquer discurso tendencialmente regionalista. "O PSD é um partido nacional e o discurso norte/sul só trará inconvenientes", assinalou. Espera que Rui Rio seja "mais ousado do que foi até agora".

Ribau Esteves, presidente da Câmara de Aveiro, e um dos mais efusivos apoiantes de Santana Lopes, usou até metáforas para exigir as tais clarificações. "Espero que neste congresso fique claro que o PSD não vai ser a nova namorada do PS", declarou aos jornalistas, quando chegou. Recordando que "durante a campanha houve divergências claras" entre as duas candidaturas", asseverou que "agora temos todos de apoiar o PSD a afirmar-se como líder da oposição, como uma alternativa que o partido precisa e não como mais um partido para a coligação à esquerda".

Mais a sul, da concelhia de Lisboa, o delegado Carlos Martins achava que a prova dos nove sobre a vontade de Rio "unir" o partido estaria nas novas escolhas para os órgãos sociais. No seu entender, "a moção da candidatura de Rui Rio dava espaço a interpretações" e por isso seriam necessárias "clarificações" do novo líder, como é o caso das "coligações". Carlos Martins sublinha que "o PSD nunca pode ser muleta do PS", pois "quando os dois maiores partidos se aproximam ao centro isso desequilibra o sistema político, levando os extremos a crescer, o que não é de todo desejável".

Dos Trabalhadores Sociais-Democratas (TSD), Rui Rio também é olhado com algumas dúvidas. O secretário-geral, José Vinagre, acha mesmo que deve ficar a ser conhecido, aqui no congresso, o sentido de voto do PSD no próximo OE, o qual, na sua opinião só pode ser "contra". Ana Isabel Valente, outra delegada dos TSD, quer também ver "clarificada a relação com o PS" num único sentido: "que não sejamos o seguro de vida do PS". José Cordeiro, que também pertence à comissão executiva da UGT, concorda com os colegas sindicalistas na exigência de "clarificações", mas lembra que com Rio se deve contar sempre com o "fator surpresa".

Sem qualquer necessidade de esclarecimentos estavam muitos outros congressistas e dirigentes. David Justino, ex-ministro da Educação, por exemplo, que foi autor da moção estratégica de Rui Rio, sublinhou que "basta ler" esse documento para não ter dúvidas. "A questão está em saber quem andou a escurecer a questão e a transformou num epifenómeno". Feliciano Barreiras Duarte, um dos principais arquitetos da campanha de Rui Rio, recordou que o presidente eleito já começou a unir os militantes, quando convidou Santana Lopes para os órgãos nacionais e "quando disse que todos aqueles que tinham apoiado Santana Lopes com convicção era como se o tivessem apoiado a ele". Avisa que "este congresso vai significar um momento de viragem no PSD, que se vai assumir como uma alternativa sólida de governo" e que "o PSD vai sair do luto de ter ganho as últimas legislativas e não estar a governar".

Também Carlos Duarte, da concelhia do Porto, garante que "a estratégia de Rui Rio é inclusiva: quem tenha boa fé e não tenha uma visão calculista e queira dar o seu contributo é bem vindo".

O presidente da Câmara do Sardoal, Miguel Borges, reconhece que "houve algumas confusões" durante a campanha, mas atribui-as a "interpretações abusivas das palavras de Rui Rio". Na sua opinião "é bem claro que Rio tudo fará para o PSD voltar a ser governo" e até "concorda" que o partido "viabilize" um governo minoritário socialista. "Não se trata a de apoiar. Viabilizar é uma coisa bem diferente, pois depende de uma negociações e de condições". Acredita que a "unidade" do partido está no pensamento de Rui Rio mas que "há militantes que têm que ter muito juizinho. Quem não estiver confortável vai sentir que o caminho é o da unidade". A pensar no OE de 2019 acha que "pelo que se tem visto até agora será um orçamento ainda muito negociado à esquerda, longe das ideias defendidas pelo PSD, o que dificilmente proporcionará o voto favorável". No entanto, "apesar de não se esperarem milagres, nunca é boa política fechar à partida a porta a uma coisa que ainda não conhecemos".

Idêntica posição tem Sérgio Vicente, da concelhia de Ovar. Afirma que "o PSD será um partido de governo que não precisa de muletas", mas lembra que para Rui Rio, "o mais importante é ter um país forte". Se "para tal for necessário viabilizar um governo PS, impondo condições, será por um país mais forte". Em relação ao OE, todos dizem que "ainda é cedo". "Não devemos rejeitar à partida. O importante é ver o que se pode corrigir para deslocalizar o orçamento da esquerda para o centro", destaca António Bebiano, de Esmoriz.

Estão inscritos neste congresso cerca de 950 delegados de todo o país, além de 250 observadores.

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