Número de toxicodependentes tratados em casa disparou

Há cada vez mais doentes a substituir metadona por medicamentos que podem ser tomados em casa, com prescrição médica. Entre 2011 e 2015, a dispensa de embalagens destes tratamentos subiu 24%. A eficácia é igual.

A descida do preço dos medicamentos para tratar a dependência de drogas como a heroína fez aumentar em 24% o consumo destes tratamentos nos últimos cinco anos. Em 2015, foram dispensadas 276 597 embalagens nas farmácias portuguesas, mais 53 mil do que em 2011. Em causa está a passagem de terapias com metadona, que regra geral só é administrada pelas equipas que acompanham o doente ou em centros de saúde, para medicamentos como a buprenorfina, que podem ser consumidos em casa.

De acordo com o relatório A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependência, em 2014, estiveram integrados nesta rede [pública] 16 587 utentes em programas terapêuticos para opiáceos, 10 838 só em metadona, 5 475 só em buprenorfina, e 274 em metadona e buprenorfina em diferentes períodos no ano. Embora a metadona continue a dominar os tratamentos, a dispensa de medicamentos para o tratamento da dependência de drogas como a heroína aumentou 24% nos últimos cinco anos. Enquanto crescia o consumo, diminuíam os encargos do SNS nesta área, passando de quase 1.4 milhões de euros em 2011 para cerca de 930 mil euros no ano passado. Ao DN, fonte do Infarmed esclareceu que "em termos gerais, a diminuição de encargos pode resultar de um efeito combinado de vários fatores: a revisão anual de preços, a entrada de medicamentos genéricos no mercado e subsequente criação de grupos homogéneos e o ajustamento de preços face ao aumento da concorrência por via da entrada de novos medicamentos no mercado."

Manuel Cardoso, vice-presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), diz que "há alguns anos que o número de doentes em tratamento é sensivelmente o mesmo, ou até diminuiu, mas aumentou os que fazem buprenorfina em oposição aos outros". Essa subida estará relacionada com uma maior prescrição de genéricos. "Se o preço dos medicamentos baixa, os que não tinham acesso passam a ter, daí que se venda um maior número de embalagens. Passa a haver uma maior opção por estes medicamentos". Enquanto a metadona é completamente gratuita para os utentes, a buprenorfina tem custos, embora seja comparticipada pelo Estado (em 37%). Vejamos, por exemplo, uma caixa de sete unidades de buprenorfina 8 mg: o utente paga 3.53 euros no caso do genérico e 15.40 euros pelo não genérico.

Segundo o vice-presidente do SICAD, entre 2011 e 2014 houve um aumento de 12.5% no número de doentes a fazer tratamento de buprenorfina. "Quando se procura dar mais liberdade ao cidadão, opta-se por este tipo de substâncias, que o doente pode levar para casa, uma vez que a metadona tem de ser tomada num sítio [junto das Equipas das Administrações Regionais de Saúde ou nos centros de saúde].

Além de oferecer mais liberdade de ação aos doentes em tratamento, a buprenorfina tem outras vantagens. João Curto, presidente da Associação Portuguesa de Adictologia - Associação Portuguesa para o Estudo das Drogas e das Dependências, refere que "é mais segura, uma vez que é mais difícil originar uma overdose" e "tem a mesma eficácia". Para o psiquiatra, o aumento no consumo entre 2011 e 2015 também estará relacionado "com a baixa de preços a uma maior facilidade de utilização".

Mas a tendência parece estar a inverter-se, pelo menos na região centro, em terceiro lugar na lista das que mais consomem estes fármacos, depois do Norte e Lisboa e Vale do Tejo. "Do ano passado para este, houve um decréscimo ligeiro no consumo de buprenorfina e um aumento na metadona no centro do País, se calhar em resultado dos custos de vida", revela João Curto. Para o presidente da APA, poderá existir ainda outra explicação para o aumento da prescrição de buprenorfina. "É um excelente medicamento para o tratamento da dor".

Apesar das vantagens do uso de fármacos como a buprenorfina, João Curto diz que "há casos em que o tratamento tem de ser feito com metadona", nomeadamente quando o toxicodependente já tem muitos anos de consumo, em situações de maior degradação social e nas mulheres grávidas. Já aqueles que têm menos anos de consumo e apoio familiar, podem beneficiar do tratamento com outros medicamentos.

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