Pão com recheio de lampreia é novidade em Entre-os-Rios

Farinha cozida a forno de lenha e recheada de pedaços suculentos de lampreia é a novidade da edição deste ano do festival daquela iguaria, que decorre até domingo em Entre-os-Rios, Penafiel.

O pão de lampreia, como é designado esta proposta gastronómica, foi criado, pela primeira vez, pelas mãos afinadas de Maria Rosa, uma comerciante afamada na região pelo pão com chouriço e a bola de carne que vende regularmente, com grande sucesso, nas festas e romarias.

Há algumas semanas, com a proximidade do festival da lampreia, Maria Rosa foi desafiada por um vereador da autarquia de Penafiel a juntar a sua destreza na confeção do pão com chouriço, de dezenas de anos, a um ex libris do concelho, a lampreia de Entre-os-Rios.

A massa usada é exatamente igual à do pão com chouriço, garante a comerciante. O que varia é o recheio, constituído por pedaços de lampreia à bordalesa, previamente cozinhados.

A massa e o recheio são levados ao forno aquecido. A cozedura demora cerca de 15 minutos. Reaberta a porta do forno, o bolo, fumegante, surge transfigurado, com um tom mais moreno, crocante e transpirando um aroma convidativo. Os apreciadores de lampreia, que já degustaram, asseguram que este bolo é um pitéu.

Neste festival da lampreia, Maria Rosa vende cada exemplar, na sua banca, a dois euros e meio, um valor que, garante, não é suficiente, atendendo ao custo elevado da lampreia. "Não é para ganhar dinheiro, é para ajudar a divulgar a lampreia de Entre-os-Rios", disse, confessando não saber como iriam reagir os fregueses à novidade.

Aproveitando o festival da lampreia, muitas pessoas acorrem a Entre-os-Rios para comprarem aquela iguaria. Os apreciadores procuram, sobretudo, algumas senhoras idosas, vendedoras e guardiãs dos segredos da preparação da lampreia, como Conceição Semide, de 74 anos, na arte desde os 10.

Esta comerciante, herdeira de uma mercearia dos avós, junto à estrada que atravessa a localidade ribeirinha do Douro, prepara, à vista de quem quiser, com denodo, cada lampreia.

Enquanto os clientes, na borda da estrada, aguardavam a sua vez, a septuagenária explicou à Lusa que a preparação é fundamental para garantir que a iguaria resulte mais saborosa no prato dos comensais. Cada lampreia, depois de apanhada no rio, fica de 10 a 15 dias num tanque com água de mina, não comendo durante esse período.

A preparação, pouco antes da venda, inclui a lavagem com água a ferver para tirar o aspeto viscoso e a rega do animal com vinagre de sangue, temperado com salsa. "As nossas lampreias podem ir logo diretas para as cozinhas das pensões", disse, querendo demonstrar a qualidade do preparo.

Por isso, Conceição Semide garante que tem alguns clientes há mais de 40 anos. Os mais fiéis vêm de longe, alguns de Lisboa, muitos do Porto e outros de Trás-os-Montes.

Não fosse a clientela fidelizada por décadas de trabalho, hoje o negócio podia estar mais difícil, porque, observou, cada vez mais gente se dedica à venda de lampreia. "É por causa do desemprego", afirmou, conformada.

Hoje, em resultado da crise, a lampreia está um pouco mais acessível, custando cada exemplar entre os 15 e os 30 euros, consoante o tamanho.

Para esta vendedora, não há nenhum ponto de país que cozinhe o petisco, à bordalesa ou de arroz, tão bem quanto em Entre-os-Rios, o que atribui à tradição de dezenas de anos na localidade.

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