Hospital patrocina Filipe La Féria

São João pagou cem mil euros à produtora para cinco musicais, destinados a angariar fundos para nova ala

O Hospital de São João, no Porto, patrocinou cinco espectáculos infantis de Filipe La Féria, no valor de cem mil euros, com o objectivo de angariar fundos para o projecto Joãozinho, destinado a construir uma nova ala pediátrica. Mas a acção inédita de um hospital público "não teve o retorno esperado", garante fonte do hospital que acompanhou o processo. Por isso, o contrato estendeu-se agora ao Sítio do Pica Pau Amarelo, musical que estreou ontem no Politeama, em Lisboa. O acordo está a gerar indignação.

Segundo o contrato assinado em Fevereiro, entre o hospital e a produtora de La Féria, a que o DN teve acesso, o investimento de cem mil euros do hospital tinha como contrapartida a exibição de cinco espectáculos exclusivos do musical Annie ao longo de nove meses (ver caixa ao lado). Mas apenas dois se concretizaram no Teatro Rivoli, no Porto, sendo que num deles, a antestreia, a verba nem reverteu na totalidade para o hospital. Por isso, Filipe La Féria terá concordado agora com a administração hospitalar destinar o dinheiro de bilheteira dos espectáculos do Sítio do Pica Pau Amarelo para este fim.

À Lusa o administrador do S. João que acompanha o processo, João Oliveira - que o DN não conseguiu contactar durante todo o dia de ontem - explicou que "o hospital adquiriu os espectáculos e o valor da bilheteira reverterá a favor do Joãozinho". Contudo, as verbas angariadas pelo valor dos bilhetes em Lisboa - que vão desde os 7,5 aos 12,5 euros nos cerca de 700 lugares do Politeama - ficam muito aquém dos 100 mil euros com que o hospital patrocinou a produtora Todosaopalco, para a exibição dos musicais.

João Oliveira também já defendeu que o "hospital não gastou um euro porque o investimento foi financiado pelas empresas farmacêuticas". O objectivo era dar visibilidade ao projecto do Joãozinho e garantir o retorno da publicidade em apoios concretos. Segundo apurou o DN, a proposta surgiu do gabinete de marketing do próprio S. João que garantiu à administração que não haveria necessidade de gastar dinheiro do hospital. Apesar destas garantias, "este contrato gerou bastante polémica", admite a fonte contactada pelo DN. E não "teve o retorno previsto: os contributos foram residuais"

O contrato "milionário", está a "escandalizar" o Bloco de Esquerda que já anunciou que vai questionar o Governo sobre o assunto. "Acho inconcebível. Isto é ir buscar dinheiro às farmacêuticas, que tanto se têm queixado das suas dificuldades financeiras e criticado o Parlamento por diminuir os preços dos medicamentos, para pagar espectáculos do La Féria. E isto faz-se a troco de quê?", questiona João Semedo. O deputado diz mesmo que, em tempos de crise, "é escandaloso que se gaste dinheiro com este espectáculo que só serve para encher páginas da imprensa cor-de-rosa".

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