"Não estamos bem em coisa nenhuma." Jornalistas juntos pela primeira vez em 19 anos

Classe profissional junta-se no 4.º Congresso, o primeiro desde 1998. São quatro dias de debate como "ponto de partida"

Quase 19 anos depois, os jornalistas voltam a encontrar-se num Congresso, o quarto em 40 anos de democracia, um hiato que tornou "urgente" este encontro de profissionais da comunicação social, que se inicia hoje no cinema São Jorge, em Lisboa, até ao próximo domingo.

Desde março de 1998, o jornalismo mudou muito. Maria Flor Pedroso, presidente da comissão organizadora do congresso, recordou ao DN os emails trocados para preparar o congresso, o que não aconteceu no 3.º. "É absolutamente urgente" a sua realização, notou, para uma classe "que está deslaçada e desmotivada, que não conversa há muito tempo, que deixou andar".

O antídoto é este 4.º Congresso dos Jornalistas. "É preciso que este congresso sirva para alguma coisa", defendeu Maria Flor Pedroso: "Que as conclusões que vamos apresentar, discutir e votar consigam ser claras o suficiente, que caibam numa folha A4, e que depois as várias instituições, organizações, empresas, jornalistas, poder político, as possam pôr em prática."

Até lá chegar haverá quatro dias de intensos debates, em três níveis. Sete sessões para debate interno dos cerca de 500 participantes; sessões públicas com conversas em torno de filmes (que se iniciou na segunda-feira e termina hoje com Spotlight), abertas a todos, e mesas redondas, com diretores de jornais, rádios e televisões; assessores e empresas de comunicação; e novos projetos no jornalismo.

Flor Pedroso antecipou outro desejo para estes dias: "Temos que olhar para o tempo que aí vem". E acrescentou: "O tempo que passou já passou, temos que olhar para os desafios e como é que, nós jornalistas, nos vamos organizar para fazer face a esses desafios."

O estado atual das coisas não é famoso, sentenciou a jornalista. "Não estamos bem em coisa nenhuma. É uma classe que é muitíssimo escrutinada, é das mais escrutinadas porque trabalhamos para fora", explicou. Mas, "se por um lado somos uma classe que é muito criticada, por outro é vista como muito corporativa, de autodefesa". O hiato de 19 anos é também um peso para uma classe que viu avolumar-se problemas, despedimentos, crises, sem fim à vista. "Ou nos libertamos desse peso e andamos para a frente e nos projetamos no futuro ou então ficamos amarrados a esse peso."

A presidente da comissão do congresso notou também que haverá uma exposição de 16 fotografias sobre o trabalho de jornalistas sem vínculo. "Uma das coisas interessantes que noto, do anterior congresso de 1998 para cá, é a quantidade de freelancers que temos na comissão organizadora", disse. Para acrescentar: "Freelancers muitas vezes é um eufemismo para dizer que se está desempregado, que se faz um trabalho aqui, outro ali."

Apesar das expectativas altas, este congresso "não é para resolver, não vai resolver tudo". "É um ponto de partida para depois começar qualquer coisa de diferente", sem esperar outros 19 anos por novo encontro. "Felizmente", disse, foi possível promover o congresso por três entidades de jornalistas - Sindicato dos Jornalistas, Clube de Jornalistas, Casa da Imprensa. "Também dá sinal da urgência" deste "encontro entre pares": "Somos todos jornalistas, uns estão diretores, outros estão repórteres, outros estão estagiários, mas somos todos pares." O debate entre pares precisa de futuro.

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