Moradores veem oportunidade no terminal de contentores

Os moradores do Bairro 2º Torrão na Trafaria, em Almada, vão ser os "vizinhos" do novo terminal de contentores anunciado pelo Governo e veem no projeto uma oportunidade para conseguirem deixar "as péssimas condições" do bairro.

"Se for para o bem da população o novo terminal é bem-vindo, mas como já estamos habituados a não ser beneficiados, depende. Estamos todos de acordo em sair daqui, pois o bairro está péssimo", disse à agência Lusa Rogério Nazaré.

O presidente da Associação de Moradores do Bairro 2º Torrão deixou críticas à presidente da Câmara de Almada, Maria Emília de Sousa, referindo que não tem feito nada pelos moradores do bairro, que fica junto ao local onde vai ser construído o novo terminal de contentores.

"Acho graça quando a presidente da Câmara diz que vão estragar o património, quando não faz nada pelas pessoas que vivem cá. Nós, que sempre fomos penalizados, estamos de acordo com o terminal, pois é a forma de conseguirmos sair daqui o mais rápido possível", defendeu.

Rogério Nazaré, que reside no bairro há 23 anos, afirmou que vivem no bairro cerca de 3.500 pessoas, num espaço com habitações de pescadores e que ao longo dos anos cresceu para um bairro clandestino.

"Temos problemas de luz, esgotos e água canalizada e vivemos com ratos e pulgas e ninguém faz nada. Há males que veem por bem, pois de outra maneira não nos vemos a sair daqui", defendeu.

Osvaldo Gaspar também reside no bairro e afirma que já que o Governo quer montar o terminal de contentores na Trafaria, tem que retirar as pessoas do bairro.

"O Governo decidiu que tem que se montar o porto na Trafaria e penso que a população não se pode manter como vizinha de um porto. Concordo com a saída do pessoal daqui e montar um porto, pois também vai gerar emprego para a população da Trafaria", defendeu.

"Não podemos é ser vizinhos de um terminal, a morar quase dentro do porto", acrescentou.

José Cleto, da Associação de Moradores da Cova do Vapor, bairro que fica com vista para o novo terminal, explicou que o novo equipamento pode trazer benefícios de desenvolvimento económico, apesar de considerar que fica comprometido o projeto da autarquia.

"Se olhamos para isto como um projeto anti-turismo e anti tudo o que a autarquia disse que queria fazer aqui é mau, mas se olharmos como um polo de desenvolvimento, e a Trafaria tem sido esquecida nos últimos trinta anos, se calhar é menos mau. Depende se vai trazer investimento e algo de novo", disse à Lusa.

José Cleto quer conhecer melhor o projeto que foi apresentado pelo Governo e a sua extensão, mas referiu que a construção de um porto de pesca na Cova do Vapor é uma necessidade imediata.

"O ganho dos portos de pesca é bom porque é uma necessidade premente para os profissionais. Por outro lado, já se sabe que toda a atividade piscatória nestas duas milhas à volta da Trafaria vai ficar comprometida pelo tráfico marítimo. Sabe-se que vamos ser afetados pelo terminal, agora temos que esperar para ver se será positivo ou negativo", referiu.

Eduardo Ferreira, que tem toda a sua vida e família na Cova do Vapor, refere que os impactos negativos na Trafaria já foram causados, quando se avançou para a construção do terminal da Silopor.

A Lusa questionou a autarca sobre as posições dos moradores dos bairros, mas Maria Emília de Sousa recusou responder.

A população e os autarcas da freguesia da Trafaria e do concelho de Almada reuniram-se no sábado na Sociedade Recreativa Musical Trafariense, onde aprovaram, por unanimidade, uma resolução contra o terminal de contentores, que deve ocupar uma área de 200 a 300 hectares de plano de água e terra.

Todos os que estiveram presentes no encontro, que encheu a sala da sociedade, aprovaram um documento para recurso a todas as instâncias judiciais nacionais e, se necessário, o Tribunal Europeu, bem como o lançamento de uma petição para enviar à Assembleia da República.

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