Marcelo muda o paradigma e fala de política interna lá fora

No dia em que se despediu de Moçambique, o Presidente da República respondeu aos que o acusam de tentações presidencialistas e mandou alguns recados para Lisboa

Para o último dia da visita de Estado a Moçambique, Marcelo Rebelo de Sousa reservou nova alteração do paradigma da sua presidência. Se até aqui era uma norma não escrita dos chefes de Estado não falarem sobre política nacional nas deslocações ao estrangeiro, este Presidente da República não se inibe de o fazer.

Comecemos pelo princípio. Manhã cedo, Marcelo aventurou-se no Mercado Municipal de Maputo. É uma autêntica feira de cores e cheiros que apelam às memórias de juventude do Presidente. O chá que a mãe comprava e bebia ou a castanha de caju de chocolate vendida ali mesmo e que hoje escasseia mas que um feirante fez de propósito para lhe oferecer. Marcelo "irradia felicidade" em Moçambique e há de repeti-lo mais tarde a propósito da política interna. Os beijos voltam a ser às centenas, os abraços outros tantos. As mulheres e os homens que vendem no mercado acenam--lhe e chamam-no a cada dois passos. E o Presidente português não recusa nada. "Vamos lá tirar uma foto", continua incansavelmente a repetir. Tem sido assim desde que a visita começou na terça-feira.

Aqui e ali compra caju, grelos e especiarias várias. Os assessores e o pessoal do gabinete já não tem braços para acomodar as ofertas que lhe fazem banca sim, banca não. "Não dou nada ao presidente da câmara de Maputo, senão ele ainda fica com isto", graceja perante a oferta de mais dois sacos de frutos secos. "Isto das malas vai ser um sarilho", diz com o gesto típico de coçar a cabeça com a preocupação. Marcelo parece que está em campanha eleitoral na "segunda pátria". Mas a verdade é que o povo se rende à passagem e à atitude do Presidente.

Já próximo da saída, um homem oferece-lhe uma bengala de pau preto, que Marcelo aceita. "É um símbolo de autoridade", diz, para de imediato, e sem que ninguém lhe perguntasse, ensaiar uma resposta às acusações de tentação presidencialista que lhe têm sido feitas pelo Bloco. "É muito útil para a velhice, só isso. Um pacificador não tem tentações presidencialistas. Prefiro a persuasão. E é muito mais eficiente o afeto do que a bengala."

Recados para Lisboa

Em seguida foi para Marracuene, a 30 quilómetros de Maputo, para visitar uma escola do ensino profissional financiada pela cooperação portuguesa. Ali aprendem-se os ofícios de pedreiro, serralheiro ou padeiro, entre outros. São 600 alunos que Portugal ajuda a formar. Só na área da educação, a cooperação portuguesa com Moçambique valeu cinco milhões de euros entre 2001 e 2015. À chegada, o ritual do costume. Muitos beijos e o povo rendido dá-lhe as boas-vindas com danças e canções. "Marcelo está connosco/ Mamã não chora que o papá está connosco", diz o refrão em sinal de respeito e carinho pelo mais velho.

Marcelo visita um a um os ateliês e oficinas. No primeiro, de pá em riste, experimenta compactar cimento, mas fazendo mira, outra vez, a Catarina Martins. "Força, força", afirma enquanto bate com a pá na massa, "que eu sou um homem de afetos, não um presidencialista. Veem como é possível compactar com afeto?", interroga sorridente. Mais à frente aplaina um barrote de madeira, "que é o que também faz um Presidente, aplainar o terreno para os consensos". Ainda testa a serralharia e o esticar da massa para fazer pão. "Em tempo de crise, o pão tem de esticar. E tem de esticar para a esquerda e para a direita, que é o que eu tenho tentado fazer, esticar para que a esquerda e a direita se entendam. Nem sempre é fácil. Por exemplo, a esquerda aqui está mais renitente do que a direita, que já está mais suave." As mensagens subliminares estão todas nas metáforas escolhidas pelo Presidente da República, incomodado com a moção que Catarina Martins vai levar à convenção do Bloco. Mais à frente na jornada há de dizer aos jornalistas que fez "uma brincadeira sobre o presidencialismo", até porque "um Presidente da República não comenta as críticas dos partidos".

Política interna lá fora

Ao fim do dia, o Presidente da República encontrou-se com a comunidade portuguesa. Falou de Portugal e de Moçambique, cantou os hinos dos dois países - tem sido sempre assim e a plenos pulmões - e voltou aos recados. "Eu gosto de irradiar felicidade, embora me irrite o otimismo desproporcionado em relação aos termos da realidade. Sou um otimista realista. Não sou daqueles irritantes que negam a realidade por força do seu otimismo. Mas também não sou daqueles realistas céticos que não gostam de irradiar felicidade." Se a primeira da indireta parecia assentar a António Costa, a segunda metade tem claramente como destinatário Pedro Passos Coelho. Marcelo voltou a falar dos consensos para enfatizar que estes "brotam da realidade" e que alguns se impuseram na sociedade portuguesa, como seja "um esforço para manter o rigor financeiro e olhar para os setores da sociedade que mais sofreram nos anos de crise por mais difícil que seja o equilíbrio". Outro consenso alargado é o de que "a inconsciência financeira tem um preço muito elevado".

A tese de Marcelo é simples: a realidade acaba por impor, mais cedo ou mais tarde, os consensos necessários, "mesmo que alguns não os desejem". E aqui, nova indireta para Pedro Passos Coelho. Antes, o Presidente já tinha reafirmado a defesa da solução governativa encontrada por António Costa dizendo que "o facto de se ensaiarem novos modelos de governação e ser uma experiência inédita não quer dizer que não caiba no funcionamento normal com as virtualidades próprias da democracia". Marcelo prova assim na sua primeira visita de Estado que, se entender, não se inibe de falar de política interna fora de portas. Coisa que os seus antecessores evitavam constantemente.

Expectativas excedidas

Antes de regressar a Lisboa, Marcelo fez o balanço da viagem. "No plano emocional excedeu em muito as minhas expectativas, quer no que diz respeito ao passado quer no que diz respeito ao futuro." No plano económico e financeiro, o Presidente mostrou-se satisfeito por haver um entendimento alargado de que "é preciso começar um novo ciclo em Moçambique" e por todos os atores políticos terem consciência daquilo que é preciso fazer. Já no plano político e do conflito entre a Frelimo e a Renamo, a prudência é palavra de ordem. Há acordo quanto "à prioridade geral" que é a paz, mas no capítulo dos passos a dar por uns e por outros ainda se está no início do processo. Mas Marcelo Rebelo de Sousa, porque é um otimista realista, confia que o diálogo vai ser alcançado.

O dia terminou com um jantar de despedida oferecido pelo Presidente a Filipe Nyusi, no mítico Hotel Polana. Marcelo tinha uma surpresa reservada para o seu amigo moçambicano. Quebrando mais uma vez o protocolo, ofereceu a primeira camisola da seleção portuguesa de futebol que vai ser usada no Europeu deste ano e que é uma réplica da que equipou os jogadores no Mundial de Inglaterra em 1966 e onde estavam quatro moçambicanos: Eusébio, Coluna, Vicente e Hilário.

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