Marcelo eleito Presidente para "unir e pacificar"

Nóvoa não conseguiu forçar a segunda volta. Maria de Belém teve derrota estrondosa. Marisa Matias passou à frente com mais de 10%

Marcelo Rebelo de Sousa venceu mesmo à primeira volta as eleições presidenciais, com 52%. Conseguiu um resultado superior ao de Mário Soares e de Cavaco Silva nos primeiros mandatos. Só o peso da abstenção, da ordem de 51,2%, ensombrou a sua eleição. Marcelo assumiu a vitória, na sua Faculdade de Direito de Lisboa, sem triunfalismos e quis forçar a nota da pacificação nacional. Prometeu mesmo "unir o que a conjuntura dividiu".

A campanha dos afetos, como lhe chamou - sem grandes meios, sem as máquinas do PSD e do CDS a trabalhar para ele e praticamente sem notáveis da sua área política -, foi quanto bastou para chegar a Belém. Marcelo usou e abusou da notoriedade de largos anos de comentador na televisão e andou na estrada sem adversários de peso. Ainda assim, o sucessor de Cavaco Silva jogou pelo seguro: o seu discurso eleitoral foi sempre moldado para agradar ao vasto eleitorado do centro. Batizou-se de candidato "da esquerda da direita". Surpreendeu a dita, da qual procurou sempre descolar com tanto afeto a António Costa. Passos Coelho e Paulo Portas nunca deram o ar de sua graça na campanha, nem ele os queria por lá.

O professor, agora eleito Presidente, toma posse em março e já tinha feito saber que será um Chefe do Estado "fixe" com governo socialista, e ontem no discurso de vitória reforçou essa intenção. "É tempo de refazer a cultura dos compromissos", disse. Costa agradeceu pouco depois e garantiu-lhe publicamente "máxima lealdade".

Resta saber se estas juras de amor entre Marcelo e Costa durarão até 2019.

Nóvoa: derrota suave?

A esquerda no seu todo perdeu as eleições, já que somada teve menos votos do que nas legislativas, embora entre os candidatos desta área política haja vencedores, como Marisa Matias...

E Sampaio da Nóvoa, que conseguiu mais de um milhão de votos, foi perdedor? Talvez não. O também professor partiu muito antes dos outros para a estrada, em abril, muito antes até das legislativas, mas não conseguiu mobilizar o eleitorado da esquerda em número suficiente para se bater com Marcelo numa segunda volta. Partiu antes porque sabia de antemão que só era conhecido entre as elites, as académicas e as políticas. Precisava de se mostrar ao país. Tudo apontava para que viesse a ser o candidato oficial do PS, não se tivesse atravessado Maria de Belém pelo caminho.

António Costa viu-se obrigado a resguardar-se, sem apoiar nenhum dos candidatos, para tentar não dividir o PS. Se calhar não conseguiu. A verdade é que, mais discreta ou descaradamente, as figuras mais relevantes da direção do partido e muitos ministros do atual governo mostraram que estavam com Nóvoa e não com Belém. Não chegou. A indefinição do PS teve custos.

Ainda assim, como independente, Nóvoa conseguiu ultrapassar a fasquia dos 22%, acima da que o histórico Manuel Alegre conseguiu em 2001 e 2006. Tem agora um património que o poderá levar a outros voos políticos no futuro.

Belém: queda estrondosa

"Ficou muito aquém do que se pretendia." Foi assim que o socialista Vera Jardim comentou a votação de Maria de Belém. Forma suave de dizer que a derrota da antiga ministra da Saúde de Guterres, que só teve 4,2% dos votos, foi estrondosa. A presidente do PS no consulado de António José Seguro lançou-se na corrida em confronto com o líder do PS, embora nunca tenha assumido essa intenção. Basta lembrar que no dia em que António Costa entregou as listas de candidatos do PS às legislativas e pediu ao partido para se focar nessas eleições, Belém anunciou a candidatura nessa mesma noite.

A sua campanha eleitoral foi pálida, sem apoio partidário, muito fechada em instituições. Acabou enredada em contradições e a polémica das subvenções vitalícias dos políticos, que defendeu, foi uma espécie de machadada final na hipótese de ter um resultado menos mau.

O insucesso de Nóvoa, mas mais o de Belém, deixa novas feridas no PS e até inflamariam se António Costa não fosse primeiro-ministro. O poder ajuda sempre a sarar as lutas internas. Mas o líder socialista percebeu cedo o desfecho das presidenciais e para amparar o choque entre os socialistas tornou pública a candidatura de António Guterres à presidência das Nações Unidas ainda esta semana.

Marisa: vitória na esquerda

Já a festa ruidosa na sede de Marisa Matias, no Porto, foi o espelho do resultado. A candidata bloquista conseguiu ficar à frente de Belém e do comunista Edgar Silva, com mais de 10% dos votos. O melhor resultado de sempre do BE numas eleições presidenciais. Nem o carismático Francisco Louçã, com 5,3% nas presidenciais de 2006, se conseguiu aproximar.

O PCP é que sai destas eleições mais fragilizado e a perder terreno para o BE. A aposta numa figura simpática, o ex-padre Edgar Silva, foi um falhanço. Não só ficou atrás de Marisa Matias como teve o pior resultado de um candidato comunista deste 1986.

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