Marcelo, crianças e as zonas do país carentes de afeto e muito mais

A 1500 km de distância, o Presidente não esquece as zonas afetadas pelos incêndios, que precisam agora de muito mais do que afeto. Ontem ao lado de crianças foi tempo de descontrair.

No dia em que o tema incêndios e relações Belém - São Bento entrou com estrondo na visita aos Açores, o Presidente quase parecia pré-programado para retomar o assunto à mínima deixa. A meio de uma visita ao ATL da associação Kairós, em Ponta Delgada, recordaram-lhe uma frase da primeira parte da visita, em junho, quando disse que o país estava "carente de afetos". Marcelo encaminhou a resposta para onde quis. "Acho que o país está menos crispado, mas acho que as zonas atingidas pelas tragédias estão mais carentes de afetos e não só de afetos, de mais do que afetos". E classe política, perguntou outra jornalista. "Espero também que acompanhe o país e não se crispe".

E não houve margem para crispações ou tensões no resto da visita a um edifício cheio de crianças. Marcelo e miúdos é sempre uma mistura curiosa. No primeiro dia de visita, ainda em Santa Maria, abraçado a um miúdo envergonhado e muito nervoso, o Presidente perguntou-lhe porque o coração dele batia tanto. O miúdo mal conseguia falava. Marcelo insistiu: "Mas, estás assim por causa de mim? O Presidente é como uma pessoa qualquer, mas com muito mais trabalho. E tu o que queres ser?" - "Engenheiro informático", diz o miúdo. "Oh, isso dá muito menos trabalho e ganha-se muito melhor".

Marcelo chegou à Coriscolândia - é esse o nome do ATL da Kairós e, já agora, procurando no "dicionário" de calão micaelense, "corisquinho" quer dizer "traquinas" - com a missão de lembrar que era sócio da Kairós quase desde o início. Trata-se de uma associação que nasceu para promover o empreendedorismo entre os mais desfavorecidos há mais de vinte anos, numa altura em que quase não se falava de empreendedorismo. O Presidente trazia na ponta da língua uma história para contar e encontrou pretexto à soleira da porta. Mal entrou abraçou-se a uma das fundadoras. "Sou sócio há 21 anos. Foi esta senhora aqui que me fez sócio. Era um grupo de senhoras e padres, que estava a arrancar com uma obra social virada para o futuro... não tinham nada disto, nada. Fiz-me sócio, depois militantemente continuei. Há duas associações de que sou sócio aqui nos Açores. Esta, por razões sociais óbvias, e depois um clube chamado "A fonte do bastardo", que é uma instituição de integração de jovens, que depois ganhavam o campeonato nacional de volleyball e que fica na Terceira, na Praia da Vitória. Mas, cada vez que vejo no banco, eu aqui pago... muito mais do que pago no Braga ou no PSD". Estava feita a declaração de interesses.

O ambiente na Coriscolândia estava dominado por um assunto que aqui, em S. Miguel, é levado muito a sério. O Halloween ou dia das bruxas. Numa longa rampa de acesso ao interior do edifício, Marcelo foi beijando, conversando e pousando para fotografias com bruxas e piratas. Foi esse o tema para as mais de duas horas de mergulho neste ATL. Ao cimo da rampa, uma mesa e o livro de honra para assinar. Não um livro de honra qualquer. Este é feito de desenhos, fotos, dedicatórias diferentes. Enquanto o Presidente se foi ajeitando na cadeira e folheando o livro, o responsável pela Kairós explicou que recebiam ali cerca de 180 crianças por dia, filhos de "pessoas que ajudámos a criar empresas e que depois não tinham sítio para por as crianças", foi esse o pretexto para a criação da Coriscolândia. Marcelo percebeu que este não era um livro para uma inscrição como as outras. "Vou aqui fazer uma coisa original para Presidente da República, anunciou. O ajudante de campo estendeu-lhe o habitual cartão que aparece sempre nestas ocasiões, com um pequeno texto preparado para o Presidente copiar, mas Marcelo pôs o cartão de lado. "Não! Que disparate, isto é o que me escrevem em Lisboa sem perceber nada do que se passa aqui..." Vai daí, pega numa pena com aparo, molha-a num pequeno frasco de tinta azul e escreve uma breve mensagem de agradecimento e parabéns à instituição, decorada com um coração.

Logo ali ao lado, o "castelo". Uma sala onde cinco bruxas-fantasma faziam uma sopa com poção mágica, com feitiço. O Presidente ajudou e aconselhou na receita. Quando chegou a garrafa do feitiço, um líquido vermelho que uma das crianças foi deitando no caldeirão, Marcelo travou o exagero. "Chega, chega que a vida está difícil e o feitiço tem de chegar para o Orçamento do próximo ano". A visita teve direito, como todas as visitas com crianças, a perguntas curiosas. Um miúdo insistiu várias vezes até conseguir a atenção do Presidente. "Posso perguntar uma coisa? O senhor tem mesmo o poder de impedir uma regra?". Marcelo ficou com um brilho nos olhos. "Sim, tenho o poder de não assinar as leis".

A cada dia, há marcas que se repetem nestas visitas. As selfies, os abraços sentidos de quem nem acredita que está ali o Presidente e a preocupação de Marcelo com a equidade na distribuição do que quer que seja entre esquerda e direita. Ontem foi o número de crianças sentadas ao lado do Presidente - que ocupava o lugar de "pirata-mor" numa mesa de jantar. "Sentem-se aqui ao meu lado, vá. E venham também aqui para a minha direita, senão tenho muito mais esquerda do que direita, aliás é o costume". Atrás da barreira de câmaras e microfones, Vasco Cordeiro, o socialista que preside ao governo regional, ria-se à gargalhada. Marcelo ouviu. "E gostam... o senhor Presidente gosta disso, muito bem!".

Mais Notícias

Outras Notícias GMG