Manter ou demitir? Costa poderá esperar que a fase crítica passe

Politólogos admitem que remodelação aconteça mais tarde, mas que a imagem do governo já saiu penalizada

Aguentar a pressão ou demitir? Esta é a grande questão que deve assolar a mente de António Costa por estes dias, em que se avolumam as vozes a pedir a queda de dois ministros do executivo: Azeredo Lopes, da Defesa, na sequência do assalto em Tancos; e Constança Urbano de Sousa, da Administração Interna, no rescaldo do incêndio de Pedrógão Grande, onde morreram 64 pessoas. E aqui o fator tempo parece ser a chave da questão. Especialistas ouvidos pelo DN explicam que o primeiro-ministro pode ter a tendência de esperar que a fase crítica passe e não mexer agora no executivo, aproveitando o capital de imagem pública que as boas notícias na economia lhe trouxeram nos últimos meses, e fazer uma remodelação governamental apenas mais tarde.

Questionado sobre se é possível manter dois ministros sob forte pressão, o politólogo António Costa Pinto lembra que, já neste século, há exemplos diferenciados na gestão das responsabilidades políticas dos ministros. "Uma mais conservadora, de Pedro Passos Coelho, de resistência na preservação da sua elite política. Guterres e Sócrates tiveram atitudes mais oscilantes nas demissões nos seus governos. António Costa ainda não foi testado a este nível." Mas o investigador coordenador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa lembra uma tendência geral nestes casos: de não ceder à pressão da oposição e aproveitar remodelações posteriores.

Posição semelhante à do professor universitário Carlos Jalali, que entende que Costa poderá ter a tendência de manter os ministros na fase crítica, podendo fazê-los sair mais tarde numa remodelação. O doutorado em Ciência Política reconhece que os dois casos fragilizam a posição de Azeredo Lopes e de Constança Urbano de Sousa, mas mesmo "havendo um desejo público de demissões, que os responsáveis não saiam impunes", não crê "que a perceção incida diretamente no ministro A ou B".

Mas as boas notícias na economia são suficientes para sustentar a imagem pública do governo perante casos tão graves ou, pelo contrário, estas polémicas podem mudar esse sentimento da população? "Estes casos têm de ser analisados num contexto mais amplo, com uma situação económica favorável, interagem com o sentimento da população, com uma avaliação positiva", responde Carlos Jalali, que distingue a situação vivida em Pedrógão - "tem um impacto emocional incomparavelmente maior" - do roubo em Tancos. "O impacto destas situações, principalmente a de Tancos, depende da visibilidade pública que têm. Entramos no verão e podem surgir outros casos que desviem a atenção, embora o de Pedrógão deva prolongar-se no tempo pelo que representou".

António Costa Pinto vai mais longe e vê já uma penalização para este governo. "Ainda para mais porque este não é um governo de coligação, como os de centro-direita, em que havia solidariedade. Neste caso os partidos que sustentam o governo no Parlamento já vieram eles próprios pedir responsabilidades aos ministros." Mas ambos os especialistas parecem coincidir na ideia de que o impacto na imagem pública do executivo depende muito da resolução rápida destas polémicas, em especial a de Tancos, que é mais episódica.

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