Mais de 66 mil doentes já foram tratados no hospital que escolheram

Gama Pinto, o único instituto público dedicado à oftalmologia, destaca-se entre os hospitais mais escolhidos pelos doentes

Mais de 66 mil doentes (66 217) optaram entre 1 de junho e 30 de setembro por ter consultas hospitalares fora das suas áreas de residência, possibilidade aberta pela nova lei da liberdade de escolha, criada em maio. No top 5 das preferências dos utentes, entre os quatro maiores centros hospitalares do país, destaca-se uma pequena surpresa, o Instituto Gama Pinto, o único público dedicado à oftalmologia.

A medida arrancou com uma experiência-piloto em maio. Foi alargada a todo o país um mês depois e agora qualquer utente pode escolher a unidade que quiser para ter uma consulta, mesmo que o hospital pertença a uma região diferente do país, acabando com a limitação de só poder ser encaminhado para uma determinada unidade. Este modelo já representa 11,7% do total de todas as primeiras consultas realizadas, segundo informação dada ao DN pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS).

A liberdade de escolha e o livre acesso, disse o ministro Adalberto Campos Fernandes, quando anunciou a medida, permitem aos utentes, com a ajuda do médico de família, escolher o local que preferem, mas ainda o que tem menores tempos de espera. Angiologia e cirurgia vascular, cardiologia, cardiologia pediátrica e cirurgia geral são as especialidades em que mais se recorreu ao mecanismo do livre acesso.

Blocos remodelados

O Instituto Gama Pinto, um palacete rosa acompanhado por um edifício de três pisos mandados construir nos primeiros anos de 1900, nasceu pelas mãos do rei D. Carlos, quando disse ao professor com o mesmo nome que viesse da Alemanha para fundar a primeira escola de oftalmologia em Portugal. Desde o início do ano até esta semana, o instituto fez 47 mil consultas e 3658 cirurgias. Na última quinta-feira foram 27.

Os quatro blocos operatórios foram totalmente remodelados em 2002, onde imperam os microscópios cirúrgicos. Três estão dedicados à cirurgia das cataratas, um aos problemas vítreo-retinianos. Não muito longe, no mesmo piso, está a sala de apoio onde os doentes aguardam pelas operações e os que já a fizeram são seguidos pelo olhar atento dos enfermeiros. "Deixámos de ter internamento em 2012. Não faz sentido que exista em todas as unidades. E, raras exceções, quase todas as operações podem ser feitas em ambulatório. Temos uma convenção com o Hospital de Santa Maria para internamento, com o qual temos uma ligação histórica e onde, desde 2007, temos equipas a fazer urgências", explica Luísa Coutinho Santos, presidente do conselho de administração.

No instituto trabalham entre 150 a 160 profissionais. Destes, 34 são oftalmologistas (mas nem todos estão a tempo inteiro), quatro anestesistas e dez internos. O ensino é muito importante. "Fazemos parte de uma rede europeia de centros de investigação, promovemos e executamos ensaios clínicos. Não podemos ficar limitados à produção standard. Temos inovação no equipamento, em moléculas farmacológicas, nos dispositivos", refere Victor Ágoas, diretor clínico.

O dinheiro é a maior limitação. Os profissionais fazem para que nunca seja um entrave. "Temos um orçamento limitado. Em 2011 sofremos um corte de 30%. Há constrangimentos na contratação e são morosas. A partir de metade do ano temos de começar a pedir reforço. As cirurgias implicam muito material e próteses", diz Luísa Coutinho Santos, assegurando: "Os cuidados médicos estão sempre garantidos. Se fosse preciso, pedíamos emprestado."

Dos doentes recebem a confiança. "Uma unidade com esta dimensão consegue ter um nível de humanização maior do que um hospital grande", diz Victor Ágoas. "Funcionamos todos como uma equipa. Sempre tivemos um âmbito nacional e sempre fomos muito procurados pelos utentes", reforça Luísa Coutinho Santos, presidente do conselho de administração, salientando que a unidade tem sido remodelada ao longo dos anos.

Em 2010, entre o anúncio e a aplicação da primeira rede de referenciação de oftalmologia, chegaram a ter utentes a ir diretamente ao instituto para marcar consulta. Nessa altura passaram a receber os doentes da área oeste (Mafra, Tomar, Caldas da Rainha, Loures) mas não podiam ser referenciados os de Lisboa. Em 2012, com a revisão passaram a receber utentes de Lisboa norte e no ano seguinte os do Amadora-Sintra. Nos primeiros meses passaram de cinco mil para dez mil inscritos para primeira consulta. Ao final de um ano os números regularizaram na média anual de dois mil a três mil.

O consolo de quem cuida

As consultas estão divididas por especialidades: geral - que determina o problema oftalmológico do doente -, retina, glaucoma, genética e subvisão. Esta última é dedicada a quem já quase nada vê. Tem uma equipa multidisciplinar com técnicos de mobilidade, assistente social, ensino especial. Fernando Bívar é um dos oftalmologista desta consulta. Explica com orgulho que a sala da mobilidade é onde os doentes aprendem a lidar com as coisas do dia-a-dia. Teresa tem 72 anos e conta que desde criança tem problemas nos olhos, mas sempre fez a sua vida. Há dez ficou praticamente cega. Na sala de mobilidade, Paula fala com ela sobre uma realidade que não quer aceitar: a bengala branca. "Ainda vou à rua à farmácia, padaria e peixaria. Não vou mais longe com medo", diz.

Paula aproveita o momento para a apresentar à bengala. "Vou mostrar-lhe como se abre e fecha." Pega-lhe nas mãos e acompanha o movimento de abrir e fechar a bengala. "Foi difícil, D. Teresa?", pergunta Paula. "Antes ia na rua e via as pessoas assim e perguntava "oh, meu Deus, o que lhes aconteceu?" Agora estou eu aqui!" Teresa desaba no conforto do abraço de Paula. E chora.

Na consulta do glaucoma (doença do nervo ótico), a oftalmologista Joana Valadas explica à D. Josefina, 70 anos, que tem de ser operada a uma catarata no olho direito. "Vou pedir exames e inscrevê-la na lista de espera para cirurgias. Quer?" Josefina diz logo que sim. Só pede que seja em janeiro, porque nos próximos meses seria complicado. A reforma é pequena e ainda ajuda a filha e o neto depois da morte do genro, por enfarte, aos 28 anos. "Todo o dinheiro que faço nas limpezas é para a ajudar. Com o que ganha, pagar casa, água, cuidar de um filho, não dá", lamenta.

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