IPO de Lisboa entre os piores na resposta a cirurgia

Unidades especializadas em cancro falham tempo legal em 20% das operações. Peritos estão preocupados, mas esperam análise para ver onde estão os problemas

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Os tempos legais de espera para cirurgia oncológica não podem passar dos 60 dias. E isto nos casos menos urgentes. Nos prioritários não devem ir além de 72 horas. Mas em 2012, os três IPO tiveram um incumprimento destes prazos em cerca de um quinto das cirurgias (entre 17,9% e 21%). Os dados são do relatório de benchmarking da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), datado de 8 de maio. Os hospitais especializados no tratamento de cancro estão assim entre as unidades mais incumpridoras dos tempos legais, já que em 34 hospitais analisados há pelo menos 20 com melhores resultados do que os IPO.

O estudo coloca hospitais em grupos distintos consoante a sua especialização e dimensão, e apesar de os IPO terem um grupo próprio, é possível concluir que, em 2012, uma fatia importante dos doentes com cancro esperava demasiado por cirurgias, o que não acontecia nos hospitais generalistas. Os prazos apertados (o tal limite de 72 horas nos casos urgentes e 15,30 e 60 dias nos níveis seguintes)"por vezes ditam incumprimentos, que muitas vezes não passam de um ou dois dias. Mas a redução dos tempos não se está a verificar", diz Francisco Ramos, presidente do IPO de Lisboa.

Vários peritos contactados pelo DN mostraram-se preocupados com os dados revelados. Foi o caso do presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, que trabalha no IPO do Porto. Apesar de ressaltar que os números têm de ser vistos à lupa, Joaquim Abreu aponta responsabilidades para os "cortes cegos que estão a se feitos, que já trazem constrangimentos. Não tenho dúvida que haverá alterações na sobrevivência, porque os valores pagos por cirurgia caíram este ano entre 30% e 70%". Atrasos, diz, podem ser relevantes apenas em algumas situações. "Depende. Se for um cancro da mama e tiver resposta em quatro semanas pode ser bom, mas num da laringe pode ser a diferença entre a vida e a morte", alerta.

Já Francisco Ramos diz que "os tempos de espera estavam a cair desde 2007 e agora a redução estagnou e até se tem vindo a agravar", admite. Mas no caso da capital há uma razão com impacto. "Estamos a fazer tratamentos e cirurgias que não fazíamos, nomeadamente na reconstrução, na área da cabeça e pescoço. São cirurgias que demoram sete ou oito horas. Claro que a consequência é fazermos menos de outras coisas".

Os recursos não esticam e Manuel António Silva, membro da Liga Portuguesa contra o Cancro e administrador do IPO de Coimbra, sabe disso. "O principal problema é não termos recursos, para substituir médicos que saíram ou morreram temos concursos demorados, o que atrasa a resposta nos tempos legais." O médico não tem dúvida de que os cortes afetam.

No tempo de espera das consultas, a oncologia é, ao contrário das cirurgias, o setor que mais cumpre: entre os 95% e quase 100%. Nas outras unidades, o incumprimento é elevado. Em relação ao melhor por grupo, 24 hospitais estão no vermelho, com mais de 10% de distância do melhor.

O estudo define o melhor hospital em cada área e em quanto se distanciam os restantes. Assim, nos internamentos com demora superior a 30 dias todas as unidades divergem acima de 10% do melhor do grupo. No caso dos reinternamentos em 30 dias a situação é pouco melhor, mas há hospitais que ultrapassam 10%. O bastonário dos Médicos, José Manuel Silva, recorda que os dados por si só pouco podem significar. "É preciso ver se há respostas nos cuidados continuados, que muitas vezes falham".

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