Imagens e frases chocantes nos cigarros não fazem efeito

A inclusão de imagens chocantes nos maços de tabaco pouco efeito teria para deixar de fumar e já ninguém liga às "banalizadas" mensagens escritas, afirmam dois especialistas em doenças do pulmão, que defendem outras medidas para combater o tabagismo.

António Araújo, presidente da Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão (PULMONALE), considera que a inclusão das imagens, que chegou a ser considerada pelo grupo de trabalho que avaliou a Lei do Tabaco, mas foi abandonada por não ter recolhido o consenso necessário, só terá um efeito dissuasor para quem considera começar a fumar ou para incentivar pessoas que estão a deixar de fumar a procurar ajuda.

Na opinião do especialista, também coordenador de patologia do pulmão no IPO Porto, estas medidas avulsas "servem muito pouco" e por isso devem ser integradas num conjunto de outras estratégias que aponta como mais eficazes.

"É apenas um pormenor na luta global que tem de haver no consumo de tabaco e que passa pela educação na idade escolar, consultas de prevenção tabágica facilmente acessíveis e incentivos à compra de medicamentos para quem quer deixar de fumar", afirmou, a propósito do Dia Mundial do Não Fumador, que se assinala na terça-feira.

O médico advoga também o aumento da carga fiscal sobre o tabaco e o aumento do preço.

Carlos Robalo Cordeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, também considera pouco eficaz a inclusão de imagens chocantes, assim como as mensagens escritas, que estão de tal forma "banalizadas" que já dão origem a piadas.

"Imagens fortes e agressivas é claro que têm o seu impacto, mas já não há ninguém que não saiba que pode vir a ter cancro de pulmão, um enfisema pulmonar, uma neoplasia ou um enfarte do miocárdio".

O especialista não tem dúvidas de que o enfoque tem de ser na ajuda a quem quer deixar de fumar, através de estratégias efectivas e concertadas que poderiam, aí sim, incluir um "marketing mais agressivo".

As estratégias defendidas por Carlos Cordeiro são as mesmas que preconiza o presidente da PULMONALE e que passam por uma "prevenção primária" nas escolas, desde o básico ao secundário, mas incidindo especialmente na faixa dos 15 anos, idade média em que mais se começa a fumar, uma maior proximidade das consultas anti-tabágicas e comparticipação da medicação.

Carlos Cordeiro salienta as conquistas conseguidas com a lei do tabaco, de 2008, afirmando que cinco por cento dos fumadores deixaram de fumar e 22 por cento reduziram de forma muito significativa o consumo.

Além disso, Portugal tornou-se um dos países da União Europeia em que a exposição ao fumo passivo mais diminuiu.

Estes números não convencem António Araújo, para quem este é "um efeito muito pequeno face à grandeza do problema", sublinhando por isso medidas assertivas que ajudem os fumadores a acabar com um vício que é responsável pelas doenças que mais matam no mundo.

De acordo com António Araújo, os últimos dados sobre prevalência de consumo de tabaco apontam para cerca de 1,5 milhões de fumadores em Portugal e todos os anos há 3.500 novos casos de cancro de pulmão por ano, o que dá uma média de quase 10 novos cancros por dia.

"Além disso, é uma doença com um prognóstico muito mau e a mais mortal", com a agravante de não existirem ainda métodos de rastreio e de diagnóstico precoce.

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