Só a partir de 1988 manuais de História abordam Holocausto

Investigadora afirma que o Estado Novo silenciou a "memória de uma neutralidade colaborante com os beligerantes"

A historiadora Cláudia Ninhos concluiu que o estudo do Holocausto dos judeus tem vindo a ser abordado de forma "paulatina" em Portugal desde 1974, mas está longe de ser um assunto que marca os manuais do ensino secundário.

A análise da historiadora portuguesa sobre o ensino do Holocausto vai ser apresentada hoje, numa conferência internacional na Universidade de Lausanne, integrada nos trabalhos da International Holocaust Remembrance Alliance, que este ano decorrem na Suíça, um organismo de que Portugal faz parte como país observador.

O tema da conferência é o "ensino do Holocausto" e ocorre na semana em que se assinala a libertação do complexo de extermínio alemão de Auschwitz, na Polónia, pelo Exército Vermelho, a 27 de janeiro de 1945.

O regime nazi exterminou entre 1933 e 1945 mais de seis milhões de judeus e ciganos do continente europeu.

Cláudia Ninhos, investigadora do Instituto de História Contemporânea, é autora do livro "Portugal e os Nazis -- Os Segredos e Histórias de uma Aliança" (2018) e faz parte da equipa internacional do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa que revelou a existência de centenas de vítimas portuguesas do III Reich durante a II Guerra Mundial.

A comunicação da investigadora, em colaboração com a Associação de Professores de História, indica que "é só a partir do ano 2000" - com a aprovação de novos programas curriculares - que o assunto começa a ser "surpreendentemente" aprofundado nos manuais portugueses.

"É aqui que a história de Aristides de Sousa Mendes ganha peso nos manuais e que surgem convites à reflexão sobre o assunto", refere a comunicação de Cláudia Ninhos.

Mesmo assim, a investigadora afirma que o "Holocausto tem estado ausente da memória coletiva portuguesa" e recorda que o Estado Novo silenciou a "memória de uma neutralidade colaborante com os beligerantes", especialmente com a Alemanha nazi, e do próprio sofrimento dos nacionais portugueses no sistema concentracionário nazi e no trabalho forçado imposto pelo III Reich.

"Até a memória do ato de salvamento protagonizado por Aristides de Sousa Mendes que decidiu contrariar as ordens do Estado português que pretendia restringir a entrada de refugiados, foi enterrada e esquecida nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros", refere acrescentando que só em 1986 o embaixador foi condecorado e reabilitado, pelo então presidente da República, Mário Soares.

A historiadora indica também que antes do 25 de Abril de 1974 o Compêndio de História do 5.º ano, de António G. Mattoso, continha apenas uma página sobre a neutralidade portuguesa durante a II Guerra Mundial e que o país é apresentado como um "oásis de paz" que acolheu milhares de estrangeiros de "todas as nacionalidades".

Só depois de 1974 é que "paulatinamente" temas como a ascensão do fascismo, o totalitarismo, a negação dos direitos do homem, a perseguição dos judeus, começam a ser ensinados no ensino secundário.

O manual escolar que começa a desenvolver mais a temática data de 1988, referindo a "deportação e o trabalho forçado na Europa" e apresentando o "Holocausto como o maior massacre da História".

Quanto ao ensino superior, a historiadora recorda que o primeiro mestrado que se debruçou sobre a II Guerra Mundial ocorre no final dos anos 1980 e que só a partir dessa data é que começam a ser estudados com profundidade questões como os refugiados que passaram por Portugal, a opinião pública durante o conflito ou, entre outros assuntos, o ouro nazi.

Cláudia Ninhos frisa que nas universidades portuguesas, ao contrário de outros países onde há departamentos de estudos sobre o Holocausto, em Portugal não "há absolutamente nada" sendo que o assunto é ensinado no âmbito da II Guerra Mundial "não havendo qualquer formação específica".

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