Greve de pessoal das escolas "muito próxima dos 90%"

Federação sindical diz que funcionários estão a aderir em grande número à paralisação, fechando "largas centenas" de escolas, enquanto outras se mantêm abertas com pouco pessoal

Uma adesão à greve "próxima dos 90%" e "largas centenas" de escolas fechadas ou a funcionar sem o pessoal suficiente. É este, segundo Artur Sequeira, da Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais (FP), o primeiro balanço da greve desta sexta-feira nas escolas públicas, que abrange todos os trabalhadores não docentes, nomeadamente assistentes operacionais (auxiliares), assistentes técnicos e outros trabalhadores, como psicólogos.

"São largas centenas de agrupamentos de escolas encerrados. A grande maioria das escolas secundárias estão encerradas", disse ao DN o sindicalista, apontando "Odivelas, Alverca, Vialonga, Évora, Castro Verde, Santa Maria da Feira, Tondela e Aveiro" como exemplos de concelhos e localidades onde a paralisação estava a ter grande impacto. "Em todo o país a realidade é esta", garantiu, explicando que o número de escolas encerradas só não é ainda maior porque "algumas estão abertas com muito poucos funcionários, por insistências dos diretores. Mas mesmo entre essas há algumas que estão a fechar", acrescentou.

Também João Dias da Silva, da Federação Nacional de Educação (FNE), disse no Fórum TSF que "a maioria das escolas estão encerradas" esta sexta-feira.

No mesmo fórum, a secretária de Estado adjunta, Alexandra Leitão, disse que pela manhã não existia "um número muito elevado de escolas fechadas", que não atingiria "os 10%" mas admitiu que a informação ainda era escassa e frisou o respeito pelo direito à greve.

Tal como fizera o ministro, Tiago Brandão Rodrigues, na quinta-feira, a secretária de Estado falou na questão do número elevado de baixas médicas entre o pessoal não docente. Um argumento que levou Artur Sequeira a criticar o ministro e a secretária de Estado: "Se há muitas pessoas de baixa é porque o número de funcionários tem vindo a diminuir e o trabalho a aumentar, para além de as pessoas se reformarem cada vez mais tarde", disse ao DN o sindicalista, que também não gostou de ver a secretária de Estado adiar para "o próximo ano letivo" a revisão do rácio (número de funcionários por aluno), sem garantir que tal será "possível".


Dia diferente com teste adiado
Com a maioria dos pais avisados, muitos alunos nem chegaram a comparecer nas escolas. E os que o fizeram também não ficaram aborrecidos com a paragem.
Martim ficou "satisfeito": o teste de inglês foi adiado, o fim de semana começou mais cedo e teve "um dia diferente", acompanhando a mãe para o local de trabalho. Como o rapaz de nove anos, aluno do 4.º ano, todos os colegas da Escola Básica de São Bartolomeu, na baixa de Coimbra, receberam a notícia estampada numa folha de papel à porta do estabelecimento: não havia aulas, "por número insuficiente de funcionários".
A greve deixou fechados, na manhã desta sexta-feira, 11 dos 22 estabelecimentos do Agrupamento de Escolas Coimbra Centro (o maior da cidade, com cerca de 1700 alunos), revelou, ao DN, Cristina Ferrão, Cristina Ferrão, líder da Comissão Administrativa Provisória da organização. De portas cerradas e pátios invulgarmente vazios e silenciosos ficaram, entre outras, a Escola Básica Poeta Manuel da Silva Gaio e a Escola Secundária Jaime Cortesão, as duas maiores do agrupamento, que tem cerca de 1700 alunos.

"Respeitando e compreendo o direito à greve", as direções das escolas tentaram "salvaguardar os interesses de alunos e pais, dando lhes conta da possibilidade de não haver aulas", nota Cristina Ferrão. Contudo, isso não evitou que os pais tivessem de arranjar soluções de última hora. "Afixaram um papel na porta a avisar-nos. Por isso, a maior parte dos pais optou por nem trazer as crianças para a escola. Eu trouxe o meu filho porque ele tinha teste de Inglês e não queria que ele faltasse. Fica sobrecarregado, porque na próxima semana já tem outros três testes marcados" conta Dulce Marques, a mãe de Martim.

Para ela, tudo se resolveu sem grandes contratempos. "Eu tenho facilidade em trazê-lo para o meu trabalho mas outros pais não têm essas possibilidades e alguns ficaram um bocado aflito. É muito desagradável", explica a encarregada de educação, num lamento extensível a todo o distrito de Coimbra, onde terão encerrado cerca de 45 estabelecimentos de ensino.
Já em Paço de Arcos, Oeiras, foi um dia igual aos outros na Secundária Luís de Freitas Branco. "Aqui nunca fazemos greves. Há um ambiente muito bom entre direção, professores e funcionários. Somos um por todos e todos por um", explicou ao DN a funcionária da portaria, Maria Araújo.
Noutras escolas do agrupamento, o cenário foi diferente. Antes das 10:00 já não se viam nem pais nem alunos à porta da Escola Básica Joaquim de Barros. Dos doze funcionários, apenas dois compareceram. "Estamos cá eu e a minha chefe", contou ao DN a funcionária Isabel Pinto, admitindo que só não imitou os colegas porque "o salário é pequeno".Já Conceição Alves, funcionária da Escola Dionísio Matias - onde só o ATL, mantido pela associação de pais, não fechou - assumiu-se "contra as greves", lembrando que, por força da subida do salário mínimo, "até tivemos um aumento este mês".

As exigências dos sindicatos incluem, para a além do reforço do número de funcionários nas escolas, a integração nos quadros de cerca de 1700 assistentes operacionais, o descongelamento dos salários e da progressão e a regulamentação de uma carreira específica do setor.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG