Gonçalo Xufre: "Há cursos atrativos que os alunos não conhecem"

O presidente da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino profissional (ANQEP) certas ofertas, com elevada empregabilidade e remunerações altas, continuam fora do horizonte dos estudantes.

Há alguns anos, um estudo da ANQEP apontou alguma desadequação entre a oferta existente ao nível do profissional e as necessidades do mercado de trabalho. Essa realidade tem vindo a alterar-se?

Tem vindo alterar-se. Portugal construiu uma rede de identificação de necessidades de formação. E o que temos estado a reparar é que existe um ajuste gradual a essas necessidades. Por vezes é necessária uma oferta mas faltam recursos humanos e materiais. Nem sempre a oferta é imediata. Mas procuramos que as ofertas abram vagas para as necessidades mais prementes e se eliminem redundâncias.

Quando olhamos para a rede, existem 45 áreas de educação possíveis mas mais de metade dos alunos estão concentrados em cinco: Informática, audiovisuais, hotelaria, turismo e comércio. Isto corresponde mais aos interesses dos alunos ou às necessidades do mercado?

Depende do curso e das regiões. Queremos uma oferta que seja relevante para o mercado de trabalho mas também tem de ter um caráter apelativo, para que os alunos a frequentem. Entre as que referiu há exemplos das duas variantes. É verdade que há um trabalho que o país tem de fazer, a dois níveis: por um lado, na informação e encaminhamento e, por outro, pela apresentação aos miúdos de profissões por eles consideradas pouco atrativas. Por exemplo, a cozinha. Com os programas Master Chef os alunos começaram a olhar para quelas profissões como muito mais atrativas. E há outras áreas, como a Metalomecânica, que se integram num conjunto de áreas da indústria necessárias ao país, com índices de empregabilidade altíssimos, índices de remuneração muito atrativos, que os alunos ainda não conhecem.

Existe um indicador da relevância dos diferentes cursos ao nível das diferentes comunidades intermunicipais. Tem impacto?

Construímos esse índice com dois níveis. Um nível central com informações que pomos dos diversos ministérios, nomeadamente do Trabalho, que tem a ver com os quadros de pessoal das empresas, inquéritos às empresas e dados europeus, que são discriminados por estado-membro; depois há uma perspetiva a nível dos territórios, que é incluída quando as comunidades intermunicipais participam no processo. E têm vindo a participar mais nos últimos anos. Esse índice não condiciona a existência de determinado curso mas normalmente reflete-se na abertura de mais ou menos vagas.

O ministro Manuel Heitor já disse que quer mais alunos do profissional a chegarem ao superior. Isso implicará repensar a forma como estes cursos estão organizados?

Quando falamos de renovação do ensino profissional falamos também muito disso. Mas o nosso ensino profissional já tem uma coisa que o diferencia de outros países que até são considerados uma referência na área: o aluno tem aptidão para entrar no mercado de trabalho mas também as competências académicas. Muitas vezes encontramos artifícios. A regra de acesso ao ensino superior muitas vezes é discriminadora dos cursos profissionais. Valorizamos os exames nacionais quando os alunos do profissional fazem uma prova de aptidão profissional muito complexa e não é valorizada. Mas já se nota uma aproximação do superior a estes alunos.

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