Falha do SIRESP próxima da hora provável das mortes na EN236-1

Comunicações no combate ao trágico incêndio de Pedrógão falharam no momento crítico. Altos responsáveis tinham negado essa situação

Hora do corte do IC8: 18.50 de sábado, dia 17, segundo a GNR, quando o fogo já deflagrava há mais de quatro horas. Hora das primeiras falhas da comunicações na Rede oficial de Emergência SIRESP: 19.45, de acordo com o relatório/resposta ontem enviado pela Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC). Menos de uma hora, mas pode ter sido o suficiente para que os bombeiros, guardas ou outros operacionais no terreno não tivessem sido informados de que o fogo estava a alastrar e rapidamente em direção à EN 236-1 e pudessem impedir que essa estrada fosse usada como alternativa e onde vieram a perder a vida 47 pessoas.

Certezas só mesmo com uma investigação e que possa ouvir as comunicações feitas através da rede SIRESP, que tem a capacidade de gravar todas as conversas entre o comando e os operacionais no terreno. Uma espécie de "caixa negra" conforme o DN já noticiou. O problema é que, tendo em conta que esse sistema deixou de funcionar quatro dias (entre as 19.45 do dia 17 de junho até ao dia 20 de junho), de acordo ainda com a ANPC, é provável que esse instrumento não tenha estado acionado. O DN questionou várias vezes a ANPC sobre se esta capacidade, que poderá ser determinante numa investigação à coordenação e gestão de meios no combate àquele incêndio, esteve ativa, mas não obteve resposta.

O presidente da ANPC, coronel Joaquim Leitão sublinha que foram utilizadas, em substituição do SIRESP avariado, a Rede Operacional dos Bombeiros (ROB) e o chamado SADO (Sistema de Apoio à Decisão Operacional), uma base de dados que regista todos os passos dos bombeiros na ação de combate, desde o primeiro alerta, incluindo a evolução dos meios no terreno. No entanto, não deixa de admitir que o impacto da interrupção das comunicações principais "fez-se sentir, sobretudo, ao nível do comando e controlo das operações, por não permitir, em tempo, o fluxo de informação entre os operacionais e o posto de comando".

Esta informação é totalmente contraditória com aquela que tinha sido transmitida pelo comandante operacional da Proteção Civil, Vítor Vaz Pinto, que num dos briefings aos jornalistas na quarta-feira, tinha desvalorizado as suspeitas que tinham sido lançadas sobre a quebra do SIRESP, tanto pelo presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, como pelo presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, Fernando Curto. Ao DN este dirigente disse mesmo que "só uma falha de comunicações entre o comando operacional e quem estava no terreno pode justificar que se tenham desviado tantas pessoas para a chamada "estrada da morte" que fazia parte do perímetro do incêndio e devia estar interditada". A verdade é que Vaz Pinto garantiu que "as falhas foram muito curtas, inferiores a meio minuto, um minuto" e que não tiveram "influência na gestão do plano de comunicações".

Na mesma linha esteve a ministra da Administração Interna, na entrevista à RTP nesse mesmo dia ao final da noite. De acordo com "informação preliminar" de que dispunha nessa altura, não tinha havido uma falha total, mas "houve intermitências" do sistema de comunicações, quando "a fibra ótica foi destruída pelo incêndio".

Neste relatório, da ANPC é ainda possível saber que entre o momento da quebra de comunicações do SIRESP, às 19.45 e a entrada em cena dos sistemas substitutos SADO e ROB, às 21.22, ainda passou mais de hora e meia. Isto porque as duas únicas unidades móveis do SIRESP, que devem ser acionadas quando o sistema principal falha, estavam avariadas!

Conforme o DN já noticiou, também em 2016, no incêndio do Sardoal, o SIRESP falhou e a unidade móvel de substituição só chegou ao terreno quase 12 horas depois. Um relatório de março deste ano fez um conjunto de recomendações de melhorias, mas o Ministério da Administração Interna não respondeu às questões do DN sobre o seu cumprimento.

Esta foi a última das respostas às três perguntas que o primeiro-ministro dirigiu a três autoridades diretamente envolvidas na previsão e no combate ao incêndio. A ANPC tinha sido questionada sobre a eventual falha do SIRESP: a GNR sobre porque não tinha cortado a designada "estrada da morte" e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), sobre se tinha ocorrido algum fenómeno meteorológico excecional que tivesse levado a que o incêndio tivesse alastrado daquela forma e causado a tragédia conhecida.

"Foi num contexto de fenómeno invulgar que terão ocorrido os fatídicos acontecimentos da EN 236-1, uma vez que o fogo terá atingido esta estrada de forma totalmente inesperada, inusitada e assustadoramente repentina, surpreendendo todos, desde as vítimas aos agentes da proteção civil, nos quais se incluem os militares da Guarda destacados para o local", explicou a António Costa a GNR. O comando-geral sustentou que não havia então "qualquer indicador ou informação que apontasse para a existência de risco potencial ou efetivo em seguir por esta estrada (EN236-1) em qualquer dos sentidos". A GNR apontou dificuldades operacionais na missão de cortar a EN236-1. "Acresce ainda referir que o acesso à EN236-1 se faz a partir de múltiplos locais, muitos deles provenientes de pequenas localidades e propriedades existentes e não apenas a partir do IC8."

O IPMA, por seu lado, lembrou os avisos que tinha feito às populações e as informações transmitidas à ANPC para organizar a prevenção no terreno. No que diz respeito às condições que determinaram situações no terreno de excecional gravidade, o IPMA explica que "foram o resultado da conjugação da dinâmica do próprio incêndio e dos efeitos da instabilidade atmosférica, gerando downburst, ou seja, vento de grande intensidade que se move verticalmente em direção ao solo, que após atingir o solo sopra de forma radial em todas as direções". "Este fenómeno é por vezes confundido com um tornado, e tem um grande impacto em caso de incêndio florestal por espalhar fragmentos em direções muito diversas", salientou o presidente do IPMA.

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