"Éramos a turma mais indisciplinada do liceu"

No âmbito da iniciativa Professor do Ano, o DN convida todas as semanas uma personalidade a recordar os seus tempos de escola. O advogado Rogério Alves tem memórias bem presentes de todos os seus professores, da primária à universidade. Lembra os sinais do 25 de Abril na frase de um docente e outro que tratava os alunos por ilustres

Ainda se lembra da sua primeira escola?

Lembro-me perfeitamente! Era a Escola Primária n.º 66, nos Olivais Norte, Bairro da Encarnação. Entrei para a primeira classe com uma professora que se chamava Odete, de quem gostava muito.Mas a minha vida teve um sobressalto, porque entrei em outubro e, logo em dezembro, fiz exame e passei para a segunda classe. Nessa época havia essa possibilidade, poupava-se um ano. Fiquei triste, gostava da minha turma, da professora, mas depois tive a professora Fernanda Godinho, de quem também gostei muito. Tinha sido colega no [curso do] Magistério Primário de um tio meu, e como ele era o doutor Castanho também me tratava por Castano (sou Rogério Paulo Castanho Alves). Era justa mas um bocadinho severa: quando nos abria os olhos ficávamos todos em sentido.

Tendo em conta que teria uns seis anos, as memórias dessa professora estão muito vivas...

Lembro-me muito bem dela, até porque, anos mais tarde, quando comecei a namorar com a minha atual mulher, elas moravam no mesmo prédio. E foi marcante, porque era uma pessoa rigorosa, trabalhadora e obrigava-nos a trabalhar. Morreu prematuramente, com uma doença grave, mas ainda a revi algumas vezes. Ela gostava de convocar antigos alunos para ir à escola e às vezes convidava-me porque tinha jeito para falar...

E depois da primária, também teve professores tão memoráveis?

Tive alguns professores bastante marcantes. Depois da Primária estudei na preparatória Fernando Pessoa (secção), onde é atualmente o Olivais Shopping. Era uma escola horrível, um conjunto de barracões sem condições, mas gostávamos de lá andar. Um dos professores de que me lembro bem era o de trabalhos manuais, para os quais eu não tinha jeito nenhum. Chamava-se Sergio Stichini. Eu era azelha a trabalhos manuais mas ele incentivava-nos e além disso conversava conosco sobre assuntos que, sobretudo antes do 25 de Abril, eram elevados, abriam perspetivas sobre o que era a vida adulta.E era um tipo engraçado, caraterística que sempre apreciei nas pessoas.Havia também um professor de Religião e Moral, José Romão, que era um homem um bocadinho revolucionário, que falava um pouco às escondidas. Tinha umas abordagens políticas que nos deixavam um pouco atónitos. Não sei se tinha partido. Na altura todas essas pessoas eram consideradas comunistas. Ensinou-nos que havia uma diferença entre moral e religião e a religião "imoral". Gostava de fazer trocadilhos...

Onde fez o liceu?

No Liceu Nacional D. Dinis, em Chelas. Foi o primeiro liceu do País com turmas mistas, ao que se diz. Era um liceu de vanguarda, com pavilhões desportivos e um belissimo ginásio. Um liceu todo "para a frentex". Entrei nesse liceu em 1973 e, portanto, no meu primeiro ano letivo deu-se o 25 de abril...

Já tivemos outro entrevistado com essa experiência. Foram tempos agitados nas escolas, não?

Aqueles primeiros anos eram comícios, reunião geral de alunos, reunião geral de escola. Até fui membro do chamado parlamento associativo. Depois havia pancadaria várias vezes mas éramos todos amigos..

E os professores?

Lembro-me bem do meu primeiro professor de História, Manuel Coroadinha. Este professor , em 73/74, deu-nos a entender que ia haver um golpe de estado. Tinha na minha turma a filha do Dias Lourenço o diretor do "Avante", do PC. Chamava-se Clécia. Um dia a Clécia estava a chorar e ele disse-nos: "Vai deixar de chorar mais brevemente do que vocês julgam". Foi um sinal, que na altura nos deixou abismados. Infelizmente não me lembro do nome da minha professora de ciências, que era excelente. Nós éramos a turma mais indiscipinada do liceu, mas desde a primeira aula, essa professora, sem nunca levantar a voz, manteve-nos sempre com um comportamento exemplar. Além disso gostávamos imenso das aulas dela. E o professor Avelino, de Matemática, que nos tratava por ilustres: "Ilustres não façam barulho, ilustres portem-se bem".

E na Universidade?

Fui para a Universidade Católica, para a Faculdade de Ciencias Humanas, em 1978, e fiz o ano zero, que se chamava o propedêutico.

Que idade tinha?

Entrei na universidade para o ano zero com 16 anos. Era dos mais novos. Na faculdade, devo confessar, não ia às aulas teóricas, só às práticas. Mas vou falar de cinco professores, com o risco de ofender alguém por esquecimento: Antunes Varela, grande figura do Direto, um homem extremamente acessível, com grande qualidade pedagógica para o ensino. Tambem gostei bastante, pela sua enorme sabedoria, de Cavaleiro Ferreira, professor de Penal. Dos que ainda estão vivos, pela enorme retidão, honestidade intelectual e saber, Jorge Miranda. Sabe muito e vive a preocupação de ensinar os alunos. Fica triste quando não aprendem. Freitas do Amaral, sempre muito próximo e extremamente atencioso. E um homem que foi meu professor e de quem sou hoje colega, um grande mestre: Germano Marques da Silva.

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