Equilíbrio entre disciplina e afeto marca crianças

O professor escolhido pelo júri em janeiro ensina no Colégio Marista, em Carcavelos. Lopo Rodrigues elogia o projeto e a ênfase na pedagogia do amor, mas garante que "não há realidades perfeitas"

Como dividir uma barra de chocolate pelos seis meninos da primeira fila? É este um dos problemas que ocupa a tarde dos 27 alunos do professor Lopo Rodrigues e que todos estão interessadíssimos em resolver: é que a recompensa é um quadradinho de chocolate. O objetivo é aprenderem frações. E perceber quanto é um terço e quanto é um sexto e como é que são representados numericamente não parece ser tarefa fácil para crianças de oito e nove anos. Há muitos braços no ar e muitos "professor, podes vir aqui", respondidos com correções e palavras de incentivo - "na linha querido, não podes passar a linha", explica a um dos alunos.

É o terceiro ano de Lopo Rodrigues com esta turma e vê-los crescer e evoluir tem sido "fabuloso", diz. A admiração é retribuída e todas as crianças dizem adorar o professor, que foi o escolhido de janeiro da iniciativa DN Professor do Ano.

Há cinco anos no Colégio Marista de Carcavelos, depois de ter passado pelo ensino público e por outros projetos privados, Lopo Rodrigues acha que está no sítio certo. "Apaixonei-me pelo projeto. Acho que encaixo perfeitamente naquilo que é a pedagogia marista, que é a pedagogia do amor, da presença, do amor ao trabalho." Lopo Rodrigues recorda a frase do fundador dos maristas, Marcelino Champagnat, que lhe serve como lema: "Para educar uma criança é preciso antes de tudo amá-la." Também é preciso "aceitar a criança como ela é" e não como nós gostaríamos que fosse, alerta.

A filosofia dos maristas está bem patente na sala: nas paredes há crucifixos, imagens de Jesus Cristo e do fundador canonizado em 1999 por João Paulo II e ainda, como não podia deixar de ser, uma pequena figura de Maria, a quem os maristas devem o nome. O dia começa com "um momento espiritual, uma oração ou uma introspeção". Mas apesar de trabalhar num colégio privado e religioso, Lopo Rodrigues recusa a ideia de que os seus alunos são todos privilegiados ou diferentes. É uma realidade muito distante do ensino público, reconhece, mas "não há realidades perfeitas". "A família mudou e a escola tem de dar resposta a isso."

Dar resposta, por exemplo, às crianças que chegam, vindas de outras escolas e de outros países e às suas dificuldades de adaptação. Mónica Mendes conta como ficou preocupada com a mudança da filha, quando esta chegou aos maristas há ano e meio. "[O professor] foi de uma meiguice, de perceção tão aguçada, que cada dia sentimos que ela chegava com uma segurança muito grande", conta. Madalena Alves considera que o docente é "aquilo que nós gostávamos de ser em casa [como pais], mas na escola". A mãe salienta que o que este lhes ensina vai muito para além da Matemática: são valores para a vida. E o que ele diz "é lei", conta Sofia Guerreiro. "Quando numa conversa surge 'mas o professor Lopo disse', acabou, não há mais discussão."

Para as crianças, que o tratam por tu, o professor é divertido, amigo e ensina bem. São estes os adjetivos mais usados pelos alunos. A pequena Madalena vai mais longe e diz que nunca vai esquecer--se dele. Uma cumplicidade evidente na sala de aula, quando um dos alunos espirra e os "santinho" surgem em catadupa, seguidos de uma ladainha impercetível. "Quem é que costuma dizer isso?", pergunta o professor. "O teu avô", respondem.

Para os colegas, o que torna o professor num exemplo é, além das qualidades pedagógicas, a capacidade de ser genuíno, diz Catarina Machado. De ser muito afetivo "sem nunca sacrificar a disciplina, o rigor, um equilíbrio que cria um ambiente de bem-estar na sala de aula", acrescenta Bruno Reis, o colega que coordenou o primeiro ciclo do colégio até ao ano passado.

Também é preciso muita energia para prender a atenção de quase três dezenas de miúdos. Com "tantas solicitações, hoje é quase preciso fazer o pino na sala de aula para chamar a atenção" das crianças, diz Lopo Rodrigues. Ou trazer chocolate para ensinar frações. "Quase todos os dias faço uma reflexão crítica, analiso o que fiz bem e o que fiz mal, tento perceber como é que posso criar empatia com os alunos, porque as crianças não são todas iguais e a obrigação é minha, não é delas." Uma empatia que se nota no entusiasmo do professor quando Luís finalmente percebe como é que pode dividir o chocolate pela sua fila.

Lopo Rodrigues sente-se com sorte por ter encontrado este lugar, numa altura em que tantos colegas se debatem com dificuldades. "Um professor do 1.º ciclo que não consegue entrar no sistema ou que é posto de fora, o que é que vai fazer? Há famílias a viver situações dramáticas", alerta.

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