"Publique-se um Livro Branco com a documentação sobre Timor"

Antigo ministro dos Negócios Estrangeiros comenta a polémica sobre a ação do embaixador Júlio Pereira Gomes em Timor-Leste em 1999

Como vê este processo que envolveu o embaixador Pereira Gomes?

Estive como ministro dos Negócios Estrangeiros na independência de Timor-Leste e tive o cuidado de pedir os relatórios que havia. Lembro-me de ter lido as comunicações do embaixador Pereira Gomes e não vi nada que pudesse refletir nem condicionalismos nem falta de caráter nem falta de coragem nem coisas que vi agora nos jornais. A prova que a minha impressão não foi negativa é que o nomeei meses depois para representante de Portugal na UEO e onde eu próprio tinha sido embaixador e representante de Portugal no Comité Político e de Segurança da UE. Para além disso, revejo-me na opinião de três pessoas que considero: o responsável no MNE pela coordenação dos assuntos de Timor nessa altura, embaixador Fernando Neves, o professor universitário que estava com o presidente Sampaio e coordenava os assuntos de Timor na Presidência da República, Carlos Gaspar, e José Lamego, que fora secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e era na altura o responsável pelas Relações Internacionais do PS (que estava no governo). As três pessoas são unânimes em declarar que Pereira Gomes fez em Timor não só o que devia ter feito mas que o fez de forma que consideram adequada e exemplar.

Também leu os jornalistas que estavam na altura em Timor? E a própria Ana Gomes...

... li e Ana Gomes não tinha a responsabilidade dos assuntos de Timor. Tinha a visão que se podia ter em Jacarta. Quem tinha a coordenação dos assuntos de Timor é que tem uma visão global. Além disso, li o comunicado do primeiro-ministro que diz que, entre as 15 ou 20 pessoas com que falou, o fez com António Guterres e com Jaime Gama e as conversas que teve não puseram em causa a decisão de indigitar Pereira Gomes para secretário-geral do SIRP. São testemunhos que me impressionam. Se os jornalistas têm outra versão dos acontecimentos, podem ter. Seguramente não tinham a visão total dos acontecimento nem estavam ao corrente, porque não podiam estar, das comunicações que havia entre a missão de observadores em Timor e o Governo português. A visão dos jornalistas nesse tempo é seguramente parcial. Não estou a desmenti-los, contaram, e fizeram muito bem, a versão que tinham.

Estava em causa a forma como o embaixador lidou com as pressões...

Pereira Gomes foi secretário de Estado da Defesa. É muito mais importante, do ponto de vista político e de responsabilidades, do que ser secretário-geral do SIRP, que é cargo de funcionário. Tratou com os ramos militares, com os chefes militares, foi seguramente sujeito a pressões políticas, a situações de tensão e nenhum dos chefes militares, nenhuma das centenas de pessoas a nível militar e político com que tratou levantou a mínima dúvida sobre a coragem, caráter e competência do embaixador para um lugar muito mais importante, sob todos os pontos de vista.

Ainda é cedo para discutir o que se passou e que posições foram defendidas por quem sobre Timor-Leste?

Há uma coisa que pode ser feita para esclarecer tudo isto, mas é preciso ver o que diz a lei: publicar um Livro Branco com a documentação que o MNE tem e onde estarão, com certeza, as comunicações que a missão chefiada por Pereira Gomes enviou para Lisboa, as instruções que recebeu, as comunicações das embaixadas na Austrália e na Indonésia, seguramente as comunicações da ONU... ao fim de 18 anos, acho esta história triste e ridícula. Se havia algo a levantar era na altura ou um ano ou dois depois. Parece que durante 18 anos houve um parêntesis e se deixou a história congelada e agora, por causa da nomeação, vem ao de cima. É uma situação incómoda para toda a gente.

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