António Saraiva: "Este governo tem condições para durar a legislatura"

Para o "patrão dos patrões", a durabilidade do governo "é uma questão da dimensão dos sapos que têm de ser engolidos"

O Presidente da República tem sido, em muitas ocasiões, parceiro do governo, mas deixou várias vezes o aviso de que chegou a hora de pensar no investimento e no crescimento da economia. Conta com a ajuda de Marcelo Rebelo de Sousa para aliviar a pressão da esquerda parlamentar em matéria laboral e para o governo ceder nalgumas das pretensões dos empresários?

Nós contamos com todas as pessoas que são responsáveis, que têm do país a leitura que devem ter, porque é esta, não pode ser outra. Por isso, como responsável que é, como conhecedor que é da situação, o senhor Presidente faz parte da solução e não do problema. Contamos com ele, como contamos com o governo naquilo em que o governo, percebendo o estado em que nos encontramos, tiver políticas que promovam esse mesmo investimento e o crescimento económico.

Mas tendo em conta que vivemos numa democracia parlamentar, que o PS precisa do apoio do PCP e do Bloco de Esquerda, conta que o PS tenha capacidade política negocial para fazer perceber ao PCP e ao BE que este é o momento de fazer aquilo que o Presidente está a pedir e de não atrapalhar o investimento?

O governo está confrontado com esta realidade, que é a situação em que nos encontramos e com a necessidade de crescimento económico que todos, seguramente, constatamos. Por isso, há regras comunitárias, o governo está pressionado por Bruxelas e está condicionado, em sede de Parlamento, pelo acordo parlamentar que o suporta. Mas o Partido Socialista é um partido europeísta, tem quadros conhecedores da situação em que nos encontramos e estou convencido de que o bom senso acabará por imperar. E eu estou convencido de que o PS terá essa atitude responsável de suportar medidas do governo, políticas do governo que não sejam do agrado, nesta ou naquela questão, dos partidos que o suportam parlamentarmente. Porque se é importante termos um acordo político, uma estabilidade política, é igualmente importante termos uma estabilidade social. E a estabilidade social passa por acordos em sede de concertação social, é aí que as empresas, a economia e os seus agentes entram, nas sugestões que temos dado.

Já agora, deixe-me perguntar-lhe, a propósito de haver uma coligação de esquerda: não sente que há mais paz social? Os sindicatos estão bastante mais tranquilos, eu diria menos contestatários.

Sente-se, de facto, uma estabilidade a esse nível. Porque é que os sindicatos o têm? Admito que seja por esse facto - não vamos escamotear a questão -, porque, lamentavelmente, há sempre uma correia de transmissão entre alguns partidos políticos e as centrais sindicais.

Acha que este governo do PS, sustentado por uma coligação de esquerda, vai durar a legislatura?

Acho que tem condições, ao contrário do que alguns analistas políticos chegaram a admitir no princípio, quando tomou posse. Acho que este governo tem cada vez mais condições. Se os indicadores económicos não traírem o país, se a DBRS mantiver o critério que tem mantido, se os partidos que suportam o atual governo à esquerda (o Bloco e o PC) continuarem a modular os seus ímpetos - é uma questão, como eu já disse um dia e permita-me novamente a caricatura, é uma questão da dimensão dos sapos que têm de ser engolidos -, este governo tem condições para durar a legislatura.

Peço-lhe uma avaliação a António Costa, que surpreendeu o país quando conseguiu um acordo à esquerda, designadamente nessa capacidade que ele tem tido de fazer o Bloco e o PCP engolir alguns sapos. E também lhe pergunto se o próprio PS não tem engolido alguns sapos.

Acho que sim, acho que todos têm engolido e, a António Costa, todos lhe reconhecemos a capacidade negocial. Porque, independentemente de discordarmos ou concordarmos com esta solução governativa - e, isso, há várias opiniões, como sabemos -, tem demonstrado essa habilidade negocial em ir mantendo esta estabilidade política. É essa capacidade que lhe reconhecemos, assim a consiga manter, porque a situação económica nacional e mundial - temos ameaças que não são apenas internas - necessita dos equilíbrios geométricos que o Parlamento possa fazer.

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