"Temos boas razões para estar animados com a perspetiva de investimento"

Há "sinais inequívocos de que há vontade de termos agora um novo patamar de relacionamento", diz o primeiro-ministro.

Estamos no final da visita, já sei que faz um balanço positivo aqui pela China. Sentiu genuíno interesse das autoridades e das empresas chinesas em abraçar esta parceria?

Senti por parte das autoridades um genuíno interesse em manter um elevado nível de relacionamento político com Portugal. E a forma como, desde o Presidente da República ao primeiro-ministro, nos receberam é um claro sinal disso mesmo. O facto de o primeiro-ministro ter estado pessoalmente no Fórum em Macau, para a cooperação com os países de língua oficial portuguesa, mostra bem a importância que atribuem a Macau nesta função de ponte com a lusofonia. E nos encontros que tive com os diferentes empresários, quer em Pequim quer em Xangai, senti que havia vontade de estabelecer um novo patamar de relacionamento. Isso já se concretizou, apesar de tudo, na abertura de uma nova ligação aérea, na assinatura de protocolos para a instalação de empresas chinesas na zona industrial e logística de Sines, na vontade que há de fazer um investimento grande em Sines, inserido no grande projeto que a China tem numa rota [marítima]. Acho que isso são sinais inequívocos de que há vontade de termos agora um novo patamar de relacionamento.

Interesses convergentes?

É a partir dessa convergência de interesses que podemos fazer projetos comuns.

Acredita que os acordos que foram assinados nesta viagem darão frutos a curto prazo? Ou seja, podem resultar em investimentos já no próximo ano?

Alguns seguramente. Por exemplo, os que foram estabelecidos entre a EDP e a CTG, relativamente a investimentos no Brasil, claramente sim. A aquisição, por parte de uma instituição financeira chinesa, do Banif Investimentos, claro que sim. Outros são investimentos que são deitados à terra e que darão os seus frutos com o tempo.

Portugal precisava de que houvesse mais investimento no próximo ano...

Sim. E vai haver com certeza. Nós temos vindo a assistir a um aumento progressivo do investimento. No primeiro semestre deste ano, tivemos um aumento do investimento privado de 7,7% e as candidaturas a fundos comunitários por parte das empresas têm sido francamente positivas, quer na área da agricultura, quer na área de serviços, quer na área industrial. E, portanto, acho que as coisas estão a retomar normalmente, embora o investimento público esteja a acontecer necessariamente de uma forma mais lenta, porque a transição de fundos dos quadros comunitários foi efetivamente difícil. Mas acho que temos boas razões para estar animados com a perspetiva de investimento no futuro.

Preocupam-no eventuais faturas desta parceria, no futuro?

Não [risos]. Não vejo que faturas existam, a não ser aquelas que são óbvias. Quem investe é para obter vantagens do seu investimento e quem recebe o investimento é para ver riqueza produzida e empregos criados. Acho que vai haver também uma atitude positiva, da parte das autoridades chinesas, quanto à abertura do mercado a produtos portugueses, nomeadamente produtos agrícolas. Hoje [ontem] estive aqui com o senhor governador da província e senti que havia disponibilidade para que produtos certificados em Macau tivessem maior facilidade de entrada na China continental. Acho que há um ambiente positivo e é preciso aproveitá-lo.

E há capacidade de resposta por parte das empresas portuguesas para exportar cada vez mais?

Claramente! Nos últimos anos, por força da crise, os empresários portugueses revelaram uma capacidade notável de descobrir novos mercados.

Mas este é um mercado gigantesco.

Sim, mas nós temos de olhar para este mercado não para fornecer o conjunto do mercado chinês. Na generalidade das nossas produções não teríamos, obviamente, capacidade para isso. Temos de nos fixar e procurar saber quais são os nichos de mercado, os segmentos de mercado onde devemos concentrar o esforço das nossas exportações.

Disse-nos logo no início da sua visita que não era da sua competência, mas durante estes cinco dias foi dado algum passo que possa significar uma ajuda para a venda do Novo Banco?

Bom, sei em concreto que durante estes cinco dias em que estive cá foi apresentada uma nova proposta de aquisição do Novo Banco por uma instituição financeira chinesa. Mas, como sabe, esse é um processo que decorre, neste momento, sob a alçada do Banco de Portugal, ao qual compete apreciar as diferentes propostas e que haverá de fazer uma proposta final ao governo. Portanto, o governo só se pronunciará depois de o senhor governador nos apresentar uma proposta. Agora, sei porque fui informado pelo investidor(*) que tinham apresentado uma proposta para a aquisição do Novo Banco.

(*) Minsheng Financial - A entidade financeira a que se refere o primeiro-ministro é a Minsheng Financial, que entregou uma proposta ao Banco de Portugal no início desta semana. A Minsheng pretende comprar uma posição no Novo Banco se a decisão do Banco de Portugal e do governo for colocar o capital em bolsa. As propostas que já existiam são diferentes e pertencem a investidores que pretendem comprar por inteiro a instituição bancária portuguesa. Só se nenhuma destas propostas for considerada apetecível é que se deve colocar a hipótese de dispersar em bolsa o capital do Novo Banco.

Enviado especial à China

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