"O povo é quem mais ordena e foi o povo que me quis"

Discurso da vitória foi à Soares: é preciso unir esquerda e direita. E descansou Costa, que prometeu "máxima lealdade"

Marcelo - autointitulado candidato da esquerda da direita - entrou ontem pela ala esquerda da sala e, no discurso de vitória, repetiu a frase de ordem de Abril que muitas vezes disse ao longo da campanha: "O povo é quem mais ordena." Na sua faculdade (a de Direito, da Universidade de Lisboa) voltou a reforçar - agora que está eleito - que tudo fará para manter o governo de Costa, prometeu criar consensos e que haverá um novo estilo em Belém: o seu.

O discurso de Marcelo foi ao estilo do de Mário Soares na primeira eleição: de unir o país, de ser o Presidente de todos os portugueses, de unir a esquerda e a direita.

O próximo Presidente propõe-se "incentivar o frutuoso relacionamento entre órgãos de soberania", voltando a defender - como fez em toda a campanha - a manutenção e estabilidade do governo socialista de António Costa.

Para Marcelo, "o Presidente da República é o primeiro a querer que o governo governe com eficácia e sucesso". Deu assim mais uma vez um sinal a Costa de que estará ao seu lado. Por ele, Costa fica a legislatura.

Costa respondeu na mesma moeda. Após o resultado, o primeiro-ministro escreveu que quer "reafirmar o compromisso de máxima lealdade e plena cooperação institucional" que teve "a oportunidade de expressar aquando da tomada de posse" do seu governo.

Marcelo - que já se disponibilizou para ajudar a que o Orçamento do Estado para 2016 seja aprovado (incluindo, se for preciso, convencer Passos Coelho) - também enviou recados ao PSD e ao CDS, partidos que o recomendaram, dizendo que conta com eles. O futuro Presidente defende que "é indispensável que a oposição seja ativa e representativa, porque do seu contributo e escrutínio se faz igualmente a força da democracia".

O presidente do PSD, Passos Coelho, também felicitou Marcelo pela vitória, que "de resto era o desejo do PSD". Para o social-democrata, o resultado "empresta-lhe uma autoridade inequívoca" para exercer o cargo de Chefe do Estado.

Marcelo, o conciliador

Para o sucessor de Cavaco Silva na Presidência é assim "tempo de voltar a página e de recriar a desdramatização e pacificação económica, social e política em Portugal".

Marcelo disse que - apesar de ter sido presidente do PSD - não se notará o cartão de militante, pois será "politicamente imparcial", acrescentando que "ninguém pode diminuir ou desvalorizar os partidos políticos, mas ninguém perceberia os interesses partidários à frente do interesse nacional".

Mais uma vez, Marcelo quer ser conhecido como o conciliador entre os dois países que se dividiram após as últimas legislativas. E prometeu: "Tudo farei para unir aquilo que as conjunturas dividam, estreitando a relação, fazendo pontes, cicatrizando feridas. Quanto mais coesos formos, mais fortes seremos."

O guião de Marcelo

Apesar de ter sempre recusado o presidencialismo e de não querer definir linhas vermelhas da sua presidência, Marcelo deu ontem uma espécie de guião do que será o seu mandato. Em primeiro lugar, propõe-se "fomentar a unidade social", uma vez que "um país como o nosso, a sair de uma crise económica e social profunda, não se pode dar ao luxo de desperdiçar energias."

A partir de 9 de março, dia em que será empossado, Marcelo pretende igualmente "reforçar a coesão social", reforçando que embora seja imparcial e veja os portugueses todos por igual ficará do lado dos "mais desprotegidos, dos mais desfavorecidos" ou, citando o Papa Francisco, "os que vivem nas periferias da sociedade".

Marcelo ontem não disse querer ser árbitro, mas assumiu que irá "promover as convergências políticas". Para o ex-líder do PSD, é necessário "refundar e refazer todos os dias a cultura de compromisso". Gerar consensos foi aliás mais um dos cinco pontos que definiu como fundamentais para o que será a sua presidência.

Ainda no discurso de vitória, Marcelo foi claro ao dizer que "no tempo que aí vem a opção é clara: ou crescemos economicamente de forma sustentável, criando justiça social, combatendo a exclusão, a pobreza e a desigualdade enquanto moralizamos a vida pública e combatemos a corrupção, ou só contribuiremos para agravar as tensões sociais e os radicalismos políticos. Marcelo garantiu também aos portugueses que "os próximos cinco anos não serão tempo perdido".

Marcelo insistiu muito na tónica da imparcialidade e no piscar de olho, constante ao longo de toda a campanha, ao eleitorado da esquerda. Marcelo disse que "não há vencidos nestas eleições" e insistiu na condição constitucional de ser "Presidente de todos os portugueses e de todas as portuguesas".

O vencedor da noite de ontem saudou o atual Presidente da República, Cavaco Silva, e também os antecessores Ramalho Eanes, Jorge Sampaio e Mário Soares, dizendo que todos "serviram o interesse nacional." E deixou ainda uma promessa de identidade: "Vou seguir o meu próprio estilo."

Nesse estilo, Marcelo Rebelo de Sousa garantiu ser um "Presidente livre e isento" que pretende servir todos os portugueses por igual "sem discriminações nem distinções".

O estilo de Marcelo

Marcelo já definiu o estilo da sua Presidência: vai ser próximo do de Mário Soares. Será uma espécie de Soares da direita, mas com o que diz ser a sua genuinidade.

O próximo Presidente da República quer "proximidade" e "afetos" dos portugueses, antecipando presidências abertas (como as de Soares) mas ainda mais próximas das pessoas.

Marcelo quer visitar a diáspora e também já definiu um objetivo para aquilo que será uma prioridade em termos de diplomacia: ajudar a eleger António Guterres - um adversário que podia ter tido nestas eleições que venceu à primeira volta - como secretário-geral da ONU. Marcelo já se comprometeu com várias associações que visitou durante a campanha: já há eventos para março.

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