Efeito Maria Luís: pior votação de sempre na direção Passos

Desconforto com subida da ex-ministra a vice-presidente do PSD foi o grande dissabor de Passos num congresso tranquilo em que conseguiu conter a oposição interna

O congresso do PSD, que ontem terminou em Espinho, estava a ser um passeio no parque para Passos Coelho que conseguiu anular os opositores internos e tirar o partido do luto por ter perdido o governo. Mas no sábado, ao anunciar o nome de Maria Luís Albuquerque como vice-presidente do PSD, gerou uma onda de desconforto nos congressistas, que terá contribuído para a pior votação de sempre para o órgão de cúpula do partido desde que é presidente.

Dando a cara ou não pelas suas opiniões, foram várias as vozes que se levantaram contra a escolha de Passos. Um delegado ouvido pelo DN disse que "esta escolha pode prejudicar o partido e não encontrei ninguém que tenha achado bem". Houve também quem o assumisse abertamente, como o antigo líder da JSD, Pedro Duarte, que admitiu que Maria Luís Albuquerque não seria a sua opção, ou Ribau Esteves, antigo secretário-geral no tempo de Luís Filipe Menezes ("não acho que Maria Luís Albuquerque tenha as competências políticas de combate para um partido que está na oposição").

Também o ex-líder Marques Mendes considerou ontem, no seu programa semanal na SIC, que a decisão de incluir Maria Luís na direção tem "custos para o líder e custos para a própria". Passos Coelho - acrescentou Mendes - fez uma "renovação pífia em circuito fechado" e deveria ter tido abertura para integrar na direção "pessoas que têm pensamentos diferentes, formas de ver diferentes", dando como exemplo José Eduardo Martins ou Paulo Rangel.

Surpresa nas estruturas causou também a escolha de uma antiga vice-presidente de Manuela Ferreira Leite, Sofia Galvão, para a direção do partido. E embora seja "amiga" e "próxima" de Marcelo Rebelo de Sousa, alguns congressistas não encontraram explicação para esta aposta do líder.
Terão sido provavelmente estes fatores a influenciar a votação para a comissão política do partido. A lista proposta pelo líder teve apenas 79,8% dos votos, com apenas 594 votos em 794 delegados. Este é mesmo o pior resultado de sempre do presidente do PSD, que em 2010 tinha conseguido 87,2% dos votos (677 em 774 delegados), em 2012, 88% dos votos (657 em 745) e, em 2014, 85% (660 em 773).

Quem não contribuiu para este resultado menos bom foi José Eduardo Martins, o mais crítico de Passos no congresso. Chegou às 11.05 e foi impedido de votar. Estava convencido de que as votações terminavam, como de costume, ao meio-dia, mas encerraram uma hora antes. "Este partido está cada vez mais alemão", desabafou.

Nos restantes órgãos, tudo correu bem ao líder. A lista que apoiava ao conselho nacional, encabeçada pelo ex-ministro Marques Guedes, conseguiu eleger 33 conselheiros (num total de 70 eleitos), mais do que os 18 conseguidos há dois anos, quando Miguel Relvas foi o cabeça de lista.

Até onde pode ir Maria Luís?

O caso Arrow Global e a pressão que a esquerda está a exercer sobre a ex--ministra das Finanças no Parlamento não demoveram Passos. O líder saiu ontem em defesa da sua escolha, afirmando que foi "uma aquisição importante para o PSD, valoriza-nos bastante, é uma pessoa de muita qualidade". Maria Luís - disse ainda - "tem muito para dar ao país e ao partido" e "tem não apenas uma grande qualidade técnica, mas também muita qualidade política". "Gosto de aproveitar sempre todos os nossos melhores recursos."
A promoção no partido - que vem com a subida à comissão política nacional, o órgão executivo do partido - coloca a ex-governante mais bem posicionada na lista dos potenciais líderes no pós-Passos. Maria Luís, mesmo como ministra, desdobrou-se em várias ações pelo partido, tentado aproximar-se do aparelho durante (e depois) do período de governação. O secretário-geral Matos Rosa em tempos chegou a chamar-lhe a nova Leonor Beleza do PSD.

Mas a sua ligação às bases ainda está longe de ser a ideal para ter condições para um dia ser líder. Na sexta-feira, apresentou a moção temática de Setúbal no congresso e eram vários os delegados fora do lugar, o barulho na sala e a pouca atenção ao que a ex-ministra dizia. Ainda está muito fresco o facto de a ex-ministra ter aceitado um desafio profissional que beliscou a imagem do partido.

Goza, no entanto, de grande prestígio junto da família europeia do PSD (o Partido Popular Europeu). Hoje, em Bruxelas, participa como oradora principal numa conferência onde também irá intervir o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk. No que depender da direita europeia (que inclui a CDU de Angela Merkel), a ex-ministra terá sempre um papel relevante.

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