Francisco Rodrigues dos Santos: "O Bloco Central mais perigoso não é o do parlamento"

Quem é e o que pensa o líder da Juventude Popular, sobre vários temas da atualidade. Da política aos partidos, do terrorismo aos refugiados, da homossexualidade à legalização da cannabis.

Desde que tomou posse como presidente da Juventude Popular (JP) em dezembro de 2015, Francisco Rodrigues dos Santos "recrutou" para este movimento dos jovens centristas quatro mil novos militantes. Uma média de 154 novos filiados por mês, tendo atualmente a JP cerca de 21 mil "jotinhas". Nas últimas eleições autárquicas, a JP duplicou o número de eleitos, tendo atingido os 160 mandatos.

Esta capacidade de mobilização política de Francisco, ou "Chicão" para os amigos, com 29 anos, contou e muito para que fosse distinguido em janeiro passado, pela prestigiada revista Forbes, como um dos "30 jovens mais brilhantes, inovadores e influentes da Europa, com menos de 30 anos", na categoria Direito & Política.

Controverso e frontal, o nada politicamente correto que é tem-no atirado para algumas polémicas como a do seu famoso comentário ao caso do Urban Beach: "O karma vingou-se. Urban foi barrado de Lisboa por um tipo moreno de ascendência indiana", escreveu na sua página de Facebook . Depois de uma onda de críticas nas redes sociais a acusá-lo de racismo, acrescentou: "Nota de rodapé para os espíritos mais incautos: esta publicação visa, através do humor bem interpretado por gente sã, criticar os maus costumes em alguns espaços de diversão noturna onde se pratica a discriminação e a violência raciais. Não ao racismo e ao despotismo!".

Os seniores do partido reconhecem-lhe qualidades e Assunção Cristas foi das primeiras a dar-lhe os parabéns pelo prémio Forbes. Conservador assumido é, por exemplo, contra a adoção de crianças por pais de ambos os sexos mas sublinha que "a homossexualidade é uma realidade que merece ser acolhida e aceite pela sociedade" (ver texto ao lado). "Reconheço plenamente o amor entre duas pessoas do mesmo sexo e gosto de viver num país onde cada um tem o direito a ser feliz independentemente da sua orientação sexual", afirma.

Politicamente, defende o combate sem tréguas ao Bloco Central, uma realidade que diz estar presente "no setor empresarial do Estado, na função pública, nas relações entre o Estado e os privados". E avisa: " o Bloco Central mais perigoso não é o do Parlamento. Esse só serve de manto a um bloco central de interesses que existe um pouco por todo o lado e que muito tem prejudicado os portugueses".

Leva ao Congresso do CDS, que se realiza no próximo fim de semana, em Lamego, uma moção em que a ideologia -democrata cristã tem lugar de destaque, uma marca que fez questão em deixar como um sinal de rebeldia juvenil, um pouco de "conflito" de gerações, face ao apregoado pragmatismo da presidente Assunção Cristas.

Nesta moção, com 43 páginas, são apresentadas propostas em inúmeras áreas, destacando-se medidas para combater o desemprego e a precariedade, e na área da educação e apoio aos estudantes. A criação de um crédito estudantil público, é uma delas.

O que pensa Francisco Rodrigues dos Santos sobre:

Forbes

Atribuiu-me uma prestigiada distinção pessoal, que escolhi interpretar como coletiva, no sentido em que toda a Juventude Popular (JP) foi protagonista daquele prémio. Tenho muito orgulho nos seus 21 mil filiados, honra-me o trabalho que fizemos, mas o futuro interessa-me mais.

Assunção Cristas

Tem elevado a fasquia eleitoral do CDS e representa uma fase ambiciosa e arejada da vida do partido. Desejo que continue a renovação geracional interna e a tradução dos valores tradicionais do CDS em propostas úteis ao país.

Paulo Portas

Foi o presidente com mais anos em funções e, por ser um líder carismático, com rasgo e com uma intuição política invulgares, moldou o conceito ideológico do CDS moderno e a afirmação de uma direita sem complexos no nosso País.

CDS

Tem o dever de se afirmar como alternativa de Governo. É um partido de centro-direita sem vergonha de o ser, o que o torna único em Portugal. Quem procura outras respostas que não as do socialismo democrático ou do seu espelho, a social democracia, tem no CDS a resposta. E foi, também, quem deu vida à JP.

Juventude Popular

É uma locomotiva em andamento, cada vez mais consciente das responsabilidades que tem e do que representa para 21 mil jovens portugueses. É quem dá vida ao CDS. E, passe a imodéstia, tem dado bastante. A JP é o braço direito das novas gerações.

Ideologia

Não acredito em política sem ideologia. Descartá-la tem servido os facilitadores, os obcecados com o poder a qualquer custo, seduzidos pelas vantagens que o este lhes tem trazido. A ideologia serve para nos socorrermos dela na busca de soluções para os problemas que existem e que vão surgindo. Quem está na política sem ideologia é tudo e o seu contrário. Pode vir a ter sucesso, mas não deixa de gerar desconfiança.

Rui Rio

É o novo líder do PSD, um partido com o qual o CDS teve e pretende manter uma relação próxima. A única garantia que poderei dar é a de que não votarei nele.

André Ventura

Representa, a uma escala reduzida, o perigo da política nos novos tempos: a resposta pelo nacionalismo e pela xenofobia, que rejeito, como forma de discutir determinados tabus de esquerda. Tem alguma razão nalgumas questões que levanta, mas está profundamente errado nas soluções que apresenta.

Oposição

Essencial em democracia. Não só na medida em que obriga os Governos a corrigir erros, mas sobretudo na sua dimensão de alternativa política. Não acredito em oposições que não constroem caminhos e programas, que se limitam a esperar que os executivos caiam.

Bloco Central

Na sua dimensão partidária, não é mais que a concretização de uma realidade que existe no setor empresarial do Estado, na função pública, nas relações entre o Estado e os privados. O Bloco Central mais perigoso não é o do Parlamento. Esse só serve de manto a um bloco central de interesses que existe um pouco por todo o lado e que muito tem prejudicado os portugueses.

PS

Essencial para o País no processo de consolidação democrática, embora, com isso, se tenha julgado o "primus inter pares" do partidarismo nacional. É um partido de poder, mas não é a charneira ou o dono do regime, ao contrário do que julga.

BE

Representa uma auto-proclamada elite "moderninha" e relativista do centro de Lisboa que, com algum sucesso, tem imposto ao resto do País a sua agenda revolucionária e globalista em matéria de costumes. Excluindo essas questões, o BE pretende ser um PCP mais chique e menos conservador.

PCP

Discordando de praticamente todas as suas opções políticas e sabendo que monopoliza, em prejuízo dos interesses das pessoas, o sindicalismo e boa parte do sector público e das autarquias, o PCP é inatacável pela coerência dogmática. Cristalizou com o manifesto comunista de 1848.

Homossexualidade

A homossexualidade é uma realidade que merece ser acolhida e aceite pela sociedade. Reconheço plenamente o amor entre duas pessoas do mesmo sexo e gosto de viver num país onde cada um tem o direito a ser feliz independentemente da sua orientação sexual.

Adoção por pais homossexuais

O grande erro deste debate tem sido o de centrar-se na questão da homossexualidade e não no interesse das crianças. Mais do que avaliarmos a vontade em ter filhos, devemos procurar saber o que é melhor para a formação e desenvolvimento de uma criança; e eu entendo que deve haver uma complementaridade de sexo no seu desenvolvimento e crescimento.

Eutanásia

A eutanásia vem colocar em perigo as franjas mais desfavorecidas e vulneráveis da nossa sociedade, que podem ser conduzidas para uma morte que não declararam querer, como acontece nos idosos, nos mais pobres, nas pessoas que sofrem doenças psiquiátricas, naqueles que são um fardo e um estorvo para as suas famílias. O combate à eutanásia faz-se nos cuidados que se prestam aos outros. A solução para os que sofrem é cuidar, não é matar.

É uma característica pessoal que me tem norteado o pensamento e a ação. Não procuro trazer a religião para a política, mas para mim a Fé é uma inspiração maior indissociável do meu quotidiano, seja em que atividade for.

Legalização da cannabis

Se for demonstrado que o efeito médico é positivo, depois de ouvidos os especialistas na matéria, sim. Se nos estivermos a escudar na questão médica para trazer facilitismos ao tráfico, absolutamente não.

Refugiados

Ao contrário dos radicais à direita, julgo que temos o dever de acolhê-los na nossa comunidade. Uma europa, fundada na matriz cristã, não pode repudiá-los, na medida em que Cristo foi, ele próprio, um refugiado. É nosso dever integrá-los no quadro dos nossos valores enquanto sociedade, nomeadamente na questão dos direitos das mulheres, por exemplo.

Minorias étnicas

Mais uma vez: a direita xenófoba repudia-as e afasta-as da sociedade; a esquerda relativista faz exatamente o mesmo. O meu ponto é que quem vive numa sociedade deve respeitar o seu código de valores, deve ser acolhido nela com orgulho. Patriotismo é conjugável com cosmopolitismo. Nacionalismo e relativismo cultural, em polos distintos, produzem os mesmos resultados: segregação e choque civilizacional.

Terrorismo

O terrorismo erradica-se com posições contundentes, firmes e implacáveis, que afirmem mecanismos constantes de segurança e defesa das sociedades: promoção do quadro cultural europeu; cooperação e partilha mais intensas entre os serviços de informação de países congéneres; eliminação das "Mesquitas de ódio"; conformação das liberdades civis às necessidades de prevenção; denúncia dos fluxos económicos que financiam os movimentos extremistas; reação militar concertada entre aliados, apoiadas simultaneamente por forças regionais abertas ao compromisso a longo prazo.

Europa

Sou um europeísta, mas não sou federalista. Acredito no projeto europeu, na Europa das nações e na partilha de esforços comuns para garantir a paz, a segurança e a liberdade dos europeus. Não subscrevo a negação dos princípios básicos que ergueram a Europa, na construção de um super-Estado sem ouvir os povos ou na hiper-regulação e "financeirização" de um continente inteiro.

Livre circulação no espaço Schengen

É uma liberdade essencial ao projeto europeu. Falar sobre ela é discutir muito do que disse a respeito dos refugiados, das minorias étnicas e da Europa.

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