Depois do luto, Costa foca-se na ação e volta a não pedir desculpa

Primeiro-ministro visitou feridos em Coimbra e encontrou autarcas na Lousã e em Oliveira do Hospital. Com a atenção na reconstrução das zonas afetadas, Costa, que não se cruzou com Marcelo, desvaloriza moção de censura do CDS

Começou a visitar os feridos dos incêndios dos últimos dias e acabou a ouvir as questões, os lamentos e as exigências dos presidentes de algumas das autarquias mais afetadas, e, de caminho, cruzou de carro o interior do distrito de Coimbra, por entre encostas despidas e enegrecidas, casas destruídas e bermas ainda fumegantes. No primeiro dia após se conhecer a real dimensão da tragédia, primeiro-ministro, António Costa, quis passar do luto à ação. De passagem por Oliveira do Hospital, pela Lousã e pelo Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, não teve apupos nem banhos de multidão, e não quis falar de desculpas aos portugueses: desvalorizou a moção de censura ao governo ontem anunciada pelo CDS e focou-se na reconstrução.

"Agora há que arregaçar as mangas e reconstruir, ao mesmo tempo que respondemos às necessidades imediatas do restabelecimento de água, das comunicações, da eletricidade", afirmou o primeiro-ministro, em Oliveira do Hospital, à saída de uma reunião com o presidente da câmara local e os seus homólogos de Santa Comba Dão, Tábua e Mortágua, concelhos onde os incêndios de domingo e segunda-feira deixaram um rasto de destruição e morte. "Continuamos a cuidar dos feridos, mas, ao mesmo tempo, há que começar a intervir nestes territórios, em parceria com as autarquias. Ficou definido o plano de trabalho para nas próximas duas semanas, [que passa por] fazermos o levantamento integral dos danos que existem, de forma a podermos começar a responder", acrescentou.

De gravata preta e passo apressado, António Costa despediu-se de Oliveira do Hospital sem se cruzar com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que chegaria à cidade beirã cerca de meia hora depois - "articulámos entre nós estas visitas, que têm naturezas distintas, temos a nossa reunião semanal amanhã [hoje]", disse, justificando o desencontro. E enjeitou um pedido de desculpas (como o que, nas entrelinhas, o mais alto magistrado da nação exigiria ao governo horas depois, na sua comunicação ao país).

"Nós temos de nos concentrar em fazer o essencial: a reconstrução do território, a revitalização das suas economias, respondendo a necessidades imediatas que muitas das pessoas têm. Isto exige um esforço gigantesco", afirmou. "É nisto que o governo tem de se concentrar, ao mesmo tempo que arranca com a reforma florestal, que apresentou no ano passado, que em julho foi aprovada na Assembleia da República, e nas propostas da Comissão Técnica Independente designada pela Assembleia da República que no Conselho de Ministros de sábado iremos transformar em medidas. Agora há que passar à ação e é nisso que este governo se tem concentrado", sublinhou.

Então, ao meio da tarde, já o primeiro-ministro tinha passado pela unidade de queimados do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, onde está internada cerca de metade dos feridos graves que fustigaram o país no domingo e na segunda-feira, e pela Lousã, onde se reunira com o presidente da câmara local e os congéneres de Arganil, Góis, Poiares e Penacova. E já se cruzará com o anúncio da moção de censura que o CDS-PP irá apresentar no Parlamento, desdramatizando. "É um direito constitucional do CDS. A legitimidade do governo resulta da Assembleia da República, que terá de responder. Faz parte da normalidade do funcionamento das nossas instituições", notou António Costa.

O ciclo de reuniões, uma formalidade sem sobressaltos ou sinal de contestação popular (apenas alguns mirones esperam o líder do executivo à chegada a Oliveira do Hospital), ainda não permitiu o "levantamento rigoroso" das necessidades dos municípios e das populações afetadas pela calamidade - hoje, os ministros adjunto, do Planeamento, da Agricultura e o do Trabalho e Segurança Social estarão no terreno a visitar a maioria dos concelhos visados pelos fogos dos últimos dias. António Costa não faz contas aos obstáculos que isso poderá colocar no cumprimento das previsões para o Orçamento do Estado de 2018. "É um esforço coletivo que todos temos de fazer. O défice é um problema que não se põe", apontou.

Antes, ao final da manhã, após a visita a Coimbra, António Costa já dissera que "o trabalho não acabou quando as chamas se apagaram" e recusou culpar as mudanças na estrutura da Proteção Civil, antes do verão, pelos graves incêndios que depois devastaram o país. "Tudo concorreu para as que coisas corressem pior. Os relatórios são claros a sublinhar que, mais do que problemas conjunturais, há um problema estrutural. Há que retirar as ilações devidas do estudo que foi feito. Há que passar das palavras aos atos, decidir e executar. É o que vamos fazer", assegurou.

Ali, onde agradeceu "o trabalho extraordinário que os profissionais do Serviço Nacional de Saúde têm feito ao longo deste verão e em particular nestes dias", cruzou-se com um bombeiro de Pedrógão Grande, "a recuperar bem", após um longo período de hospitalização também com passagem pelo Porto: um simbólico encontro após os quatro meses de chamas que enlutaram o país.

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