Denúncias sobre refeições há dois anos nas mãos do governo

Administração Interna. Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários enviou ofício ao então secretário de Estado Jorge Gomes. Liga de Bombeiros admite queixas-crime por difamação

As alegadas irregularidades envolvendo as refeições servidas aos bombeiros no teatro de operações já tinham sido denunciadas ao governo, há quase dois anos, pela Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários (APBV), cujo presidente fala em "inércia da tutela".

Recorde-se que, como avançou ontem o DN, A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) detetou indícios de irregularidades nas despesas de alimentação de bombeiros que estiveram envolvidos no combate aos grandes incêndios de agosto, tendo suspendido por 20 dias o pagamento de reembolsos a 12 associações. Uma decisão que, defendeu ao DN Rui Silva, da APBV, foi "uma medida reativa" às notícias que começaram a surgir a partir do momento em que alguns bombeiros divulgaram nas redes sociais imagens de refeições manifestamente inadequadas, quando a postura da tutela deveria ter sido, no seu entender, "preventiva".

No ofício, datado de 18 de dezembro de 2015, enviado ao então secretária de Estado da Administração Interna Jorge Gomes - que deixou o governo com Constança Urbano de Sousa, na sequência dos incêndios de Outubro deste ano, e é atualmente deputado - a associação defendia a necessidade de se fazer depender estes reembolsos "da entrega de fatura emitida por restaurante, cantina ou outra entidade legalmente constituída e coletada, com atividade de restauração", de forma a "evitar-se o faturamento de dádivas da população e uma má alimentação dos bombeiros" e salvaguardar "as condições de higiene e segurança alimentar, na confeção, embalamento e distribuição da s refeições e a evasão fiscal".

"Está lá tudo identificado: os problemas e as soluções", defendeu ao DN Rui Silva, considerando que as situações são claras: "Vinte e um euros por dia para a alimentação têm de representar uma boa alimentação. Ponto. Inicialmente, o que nos chegava eram relatos de associados que estavam a receber dádivas. E alguém que declara uma refeição de sete euros mas serve aquilo que a população dá não está a agir bem".

O dirigente da APBV - que foi ele próprio alvo de contestação interna mas garantiu entretanto a reeleição em setembro - defendeu que estas denúncias visam sobretudo responsabilizar o governo pela "fiscalização" e não lançar dúvidas sobre a idoneidade dos bombeiros em geral. "É importante que haja transparência. Até porque ouvimos sempre a palavra "bombeiros" nestas trapalhadas todas quando o bombeiro homem e a bombeira mulher não têm nada a ver com isso".

O DN questionou o deputado Jorge Gomes e o Ministério da Administração Interna sobre o ofício de dezembro de 2015 da APBV mas não teve respostas até ao fecho desta edição.

Quem não aceita que se lance "o anátema da desonestidade de todos os bombeiros " é Jaime Marta Soares, presidente da Liga de Bombeiros Portugueses que, em declarações ao DN, disse que caso se verifique que alguém cometeu erros, terá de "pagar por eles", mas que até lá será presumida a inocência das 12 associações visadas.

"Não me recordo que os bombeiros alguma vez quisessem viver à custa deste tipo de atitudes. Não está na sua forma de ser", defendeu, revelando que, "se for entendido que foi uma denúncia falsa", a LBP patrocinará queixas-crime e admitindo poder fazer o mesmo em relação à APBV caso esta não "apresente provas" do que afirma.

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