Cura por auto-transplante é "futurologia"

Dois médicos especialistas defenderam hoje que é mera "futurologia" prometer que a recolha de células estaminais do cordão umbilical pode ser determinante na vida do seu portador, pois atualmente a única verdade científica é que praticamente não tem uso.

Em declarações à Lusa, o hematologista do IPO Nuno Miranda, responsável da equipa que está a tratar o filho do futebolista Carlos Martins, explicou que o que hoje se sabe com exatidão é que durante a infância esta utilidade é "praticamente nula".

"Em relação ao futuro, não se sabe. Pode ser tudo ou não ser nada. Mas futurologia não é a minha especialidade, isso é para as bolas de cristal", afirmou.

António Vaz Carneiro, médico e coordenador do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, partilha da mesma opinião, considerando que "comprar um serviço com medo de vir a sofrer uma doença no futuro é como não sair de casa com medo que lhe caia um meteorito em cima. É um bocadinho pateta".

O comentário dos médicos surge na sequência de um anúncio publicitário da crioestaminal, em que é apontada uma hipótese em 200 de as crianças virem no futuro a desenvolver doenças como leucemia, linfoma ou tumores sólidos, passíveis de serem tratadas com células estaminais das próprias ou de um irmão.

De acordo com o hematologista do Instituto Português de Oncologia (IPO), a melhor opção é pelo Banco Público de Sangue do Cordão Umbilical, porque estas amostras podem ser usadas por qualquer doente no mundo, evitando recorrer à recolha de medula de dador.

Quando se fala em recolher células do cordão umbilical para uso do próprio, a sua possível utilidade na infância é praticamente nula por se tratar de doenças genéticas, que já estão presentes nessas células.

"Na maior parte dos casos, a leucemia é detetada nas células do cordão umbilical. " partida essas células já são doentes, pelo que a doença pode ser tratável com células de dador e não do próprio", exemplificou.

Relativamente ao argumento da possibilidade de utilização das células para um irmão, o responsável referiu que se existe um irmão compatível, esse tratamento é possível em qualquer altura com transplante de medula.

Nuno Miranda lembrou ainda que as células não têm utilidade para doenças que surjam depois dos 25 anos - tempo de crio preservação -- o que acontece em muitos casos.

"Quanto aos bancos públicos, de todo o mundo, já usamos muito. Várias vezes por ano fazemos transplantes usando células do banco público. Nós próprios, em casos selecionados, propomos aos pais guardar as células de uma criança que está para nascer, quando o irmão está doente. Mesmo sem saber se vai ter utilidade, mas é uma questão de segurança e não tem custos para os pais", disse.

António Vaz Carneiro é igualmente favorável ao banco público, sublinhando que "é quando entra o aspeto económico e financeiro [empresas privadas] que a coisa se torna mais complicada".

Comentando o polémico anúncio da crioestaminal, em que uma criança, aparentemente sentada numa marquesa de um gabinete médico, pergunta aos pais se guardaram as suas células, classifica-a de "condenável", do ponto de vista moral.

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