Carlos Costa queria Salgado fora do BES mas faltava base legal

Governador do Banco de Portugal não tinha "segurança jurídica" para retirar idoneidade. E garante ter condições para continuar

O governador do Banco de Portugal (BdP) queria afastar Ricardo Salgado da liderança do BES já em janeiro de 2014, antes da queda do banco, mas não retirou a idoneidade por falta de "segurança jurídica".

Carlos Costa garantiu aos deputados da comissão de Orçamento e Finanças que queria afastar Salgado mas que lhe faltava a fundamentação legal para avançar com a retirada de idoneidade ao ex-líder do BES. "Uma coisa é a convicção e outra é eu ter fundamentação e segurança jurídica para a decisão. Tínhamos a convicção, mas faltavam- -nos os instrumentos para a demonstração", afirmou.

"À administração do BdP nunca subiu uma proposta fundamentada para a retirada da idoneidade" de Salgado, garantiu, embora tenha admitido que "quando decidimos não renovar mandatos já estávamos a dar mostras do nosso entendimento" e "claro" que queria afastar Ricardo Salgado, caso contrário não teria pedido um "plano de sucessão" para o banco.

"Retirar idoneidade é um ato de grande gravidade, exige fundamentação e no caso específico da lei do momento era preciso que houvesse um trânsito em julgado", frisou .

O governador recusou ainda a ideia de ter ignorado o parecer técnico revelado pela reportagem da SIC, frisando que existem vários documentos de trabalho no Banco de Portugal. Perante a insistência de João Galamba, do PS, para se explicar, Carlos Costa vai mais longe e sugere a criação de um "comité", com um deputado de cada partido, para consultar os documentos, "sem telefones nem máquinas fotográficas" e sujeito a regras de sigilo. Uma iniciativa que foi aplaudida pelos deputados da direita, que avançaram de imediato com uma requerimento oral, mas adiada pela esquerda, que quer votar o requerimento fora da audição.

Carlos Costa apontou o dedo aos auditores, nomeadamente à KPMG, que aprovou até 2012 as contas consolidadas do BES e garantiu que desde 2013 que acompanhava de perto a informação financeira relacionada com o Grupo Espírito Santo (GES). E também criticou a "passividade" dos acionistas do BES, como o Crédit Agricole. "O Banco de Portugal alertou os acionistas, incluindo o Crédit Agricole, de que havia questões em torno da situação do banco. Do outro lado houve uma passividade que não confortou, de forma nenhuma, o Banco de Portugal."

Já sobre o Novo Banco, o governador frisou a dificuldade em criar um banco de transição mas admitiu que gostaria que, concluída a venda, em fase de negociações exclusivas com o Lone Star, o Novo Banco fosse considerado um case study europeu.

Apesar das notícias que têm vindo a público, Carlos Costa considera ter condições para se manter à frente do Banco de Portugal. Questionado pelo deputado do PCP Miguel Tiago sobre o tema, depois de terem vindo a público notícias de que não tinha respondido a pedidos de informação do supervisor do Dubai, foi taxativo: "Claro que sim. Se tem alguma coisa a apontar, faça favor", rematou.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG