Aldeias renascem das cinzas por sua conta e risco

Sem ajuda pública, nas aldeias onde o fogo queimou vidas, casas e sustentos, é a ajuda dos vizinhos e voluntários que persiste

Na estrada nacional 236 há remendos negros no chão. Alcatrão novo, que esconde o rasto das 47 mortes ali ocorridas naquela tarde infernal de 17 de junho, quando em poucos minutos o fogo engoliu encostas, casas, carros e vidas, num total de 64 oficialmente contabilizadas. As câmaras municipais de Castanheira de Pera, Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos foram tão céleres a reparar a via pública como os portugueses em geral a levantar uma onda de solidariedade. Mas estará essa ajuda a chegar ao interior das aldeias agora ainda mais desertas e mais pobres? Como é que se renasce das cinzas?

"Limpando. Limpando tudo isto que é tão negro, tão sujo. Limpando primeiro de fora da porta e depois de dentro para fora." Dina Duarte explica assim ao DN o antídoto para sobreviver aos dias em que amigos, vizinhos e familiares mergulharam num inferno de chamas. Teve sorte esta técnica do Instituto de Emprego e Formação Profissional, nascida em Castanheira de Pera e residente na aldeia do Nodeirinho, subitamente conhecida de todos por ter perdido 11 dos seus pouco mais de 30 habitantes. "Sinto-me duplamente abençoada, sabe? Naquele dia estávamos na nossa casa do Bolo, em Castanheira, quando o fogo se deu aqui. E no dia seguinte estávamos aqui quando o fogo se deu lá. Nenhuma das nossas casas ardeu."

Salvaram-se, inexplicavelmente. À volta ardeu tudo o que havia, um oásis verde plantado pelo marido ao longo de seis décadas, agora imortalizado apenas em fotografias. Dina Neves e João Viola recebem o DN 13 dias depois do incêndio, numa tarde em que ele, jardineiro de profissão na Câmara de Pedrógão Grande e artista plástico por vocação, engana a tristeza com plantas acabadas de chegar do horto e outras ofertas. Um castanheiro, por exemplo, que lhe trouxeram de Lisboa. Há de plantá-lo talvez no lugar daquela acácia longifólia que o vento arrancou mesmo antes de lá chegar o fogo. À volta da casa é bem visível o efeito de "qualquer fenómeno que tombou as árvores", com violência, antes de o fogo avançar. Entre os paus das plantas queimadas Dina vai plantando todo o verde que consegue. Uma dália, por exemplo. Salvaram-se ainda algumas ervas aromáticas. Naquele sábado, as janelas da parte de cima da casa estavam abertas. Quando finalmente a GNR os deixou passar, no dia seguinte, e voltar a casa, "havia fagulhas em cima da cama. É impressionante como é que não ardeu tudo."

João Viola nasceu ali, naquela casa do Nodeirinho, datada de 1876. Desde muito novo que se lembra dos fogos, talvez "logo a seguir ao 25 de Abril. Sempre que ardia uma encosta as pessoas plantavam eucaliptos a seguir. Agora está à vista o resultado. A folha de eucalipto tem uma quantidade de óleo impressionante". Ainda assim, nunca pensou que o fogo ali chegasse, tal era a quantidade de hortas que circundavam as casas.

Quando o casal soube do incêndio quis voltar imediatamente para casa, mas já não conseguiu. "A primeira indicação que tivemos é que tinha morrido toda a gente na aldeia", lembra João Viola, cuja memória retém os 120 habitantes de outros tempos, matos roçados e tudo limpo. Os que viram a tragédia avançar falam de "uma massa de ar quente. Chovia fogo", dizem. "Se os bombeiros aqui tivessem conseguido chegar ficavam cá todos", acredita João. Ele e a mulher têm passado os dias a ajudar os vizinhos, muitos fragilizados pela morte de familiares diretos, de amigos e de vizinhos de toda a vida. Encontrámos Dina junto ao tanque onde 12 pessoas se salvaram, durante aquela noite. Em frente fica a paragem de autocarro, agora forrada a editais da Cáritas, da Câmara de Pedrógão Grande, da Junta de Vila Facaia. Dão conta dos locais onde estão os mantimentos e as roupas, dos dias para levantamento de perdas de bens, dos números para onde ligar. Os mais velhos não saberão ler o que ali está, tão-pouco saem de casa estes dias. Ou porque não podem ou porque não têm quem os leve.

Voluntariado de porta em porta

Nos caminhos de Nodeirinho, Pobrais ou Barraca da Boavista cruzamo-nos com a solidariedade da sociedade civil. Um casal que veio da Moita do Ribatejo, em dois carros, traz as malas cheias de roupa e alimentos. "Viemos para estar um pouco com as pessoas, dar um abraço e chorar com elas, se for o caso", explicam. Por pouco não se cruzavam com uma carrinha onde viajam três voluntárias, todas funcionárias de uma empresa de Pombal que, durante duas semanas, disponibilizou todos os dias uma carrinha e três funcionários para levar ajuda àquelas populações. Andreia Marques é uma delas. Começou por ajudar logo nos primeiros dias, no quartel dos bombeiros de Pombal, onde estava a Cruz Vermelha a recolher os bens que iam chegando de toda a parte. Mas percebeu que era preciso ir mais além. Na empresa falou dessa vontade, juntaram-se colegas e patrões. Desde o início da semana passada que anda no terreno, e o que tem visto contrasta com a onda de solidariedade que deveria estar a chegar a quem precisa. "Vimos armazéns cheios de coisas, em Figueiró e em Pedrógão, mas os bens não chegam às pessoas. Por isso estamos a levar tudo o que podemos, especialmente fruta e legumes, nos últimos dias. Primeiro levávamos mercearia e águas, mas as pessoas perderam as suas hortas, as árvores de fruto, tudo, e precisam de comer."

Quando falou ao DN na sexta-feira passada, ao lado da colega Muriel Gonçalves, Andreia só se cruzara com militares do exército no terreno, bem como uma equipa do programa Contrato Local de Desenvolvimento Social (CLDS) de Pedrógão. "As pessoas estão por sua conta e risco", sublinha Andreia, que garante haver "muita gente a passar necessidades, mas que não diz por vergonha. Não conseguem ir buscar os alimentos, não têm como". Por outro lado, impressionou-a igualmente a falta de apoio psicológico que supostamente já estaria em prática. "Há um rapaz que está sozinho em casa, o pai da pequena Bianca, que morreu juntamente com a avó; tem tudo na mesma como na tarde do incêndio. A mulher está internada na unidade de queimados, em Coimbra, e lá ficará por muito mais tempo. Aquele homem precisava muito de apoio", aponta Muriel.

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