"Ainda me surpreendo ao entrar num café em Roma e ver um autoclismo meu da OLI"

Almoço com António Oliveira, presidente da OLI, a maior produtora de autoclismos do sul da Europa

Foi há dois meses que António Oliveira, com quem estou agora sentado a almoçar, me foi apresentado pelo embaixador italiano em Lisboa como "um grande empresário português". Provavelmente, tínhamos na mão um taça de limoncello (eu) e um copo de tinto italiano quando trocámos cartões-de-visita. Giuseppe Morabito organizara uma pequena festa gastronómica no Palácio dos Condes de Pombeiro e convidara alguns amigos de Itália, desde gente das artes até homens de negócios, como o presidente da OLI, que fiquei a saber logo ali ser "o maior produtor de autoclismos do Sul da Europa".

A partir daí fiz uma pequena pesquisa e descobri que a OLI, sediada em Esgueira (Aveiro), não só equipa 70% das casas escandinavas, alguns arranha-céus dos Emirados Árabes Unidos e vários hotéis da Arábia Saudita como tem uma fábrica na Rússia e há anos que consta no top das empresas portugueses que mais patentes registam. Assim, quando António Oliveira uns dias depois me convidou por e-mail para conhecer a sua fábrica, pensei que mais interessante ainda seria conhecer e dar a conhecer o engenheiro por detrás da OLI, alguém a quem um dia um artigo de jornal chamou "o rei dos autoclismos", título chamativo mas que diz pouco sobre o homem de 63 anos que me trouxe aqui ao Dóri, um restaurante da Costa Nova, e que ao subir as escadas explica o nome do sítio apontando para as inúmeras fotos nas paredes dedicadas à pesca do bacalhau: "Dóris são estes pequenos barcos que os navios bacalhoeiros levavam e que depois de chegados aos mares da Terra Nova largavam para a pesca do bacalhau." Sempre a aprender, comento eu. Já no caminho da fábrica para o restaurante, um desvio permitira-me ver o Argus, agora encalhado à espera de renovação mas noutros tempos uma das glórias da nossa frota bacalhoeira e que, alerta-me António Oliveira, foi tema de um livro de Alan Villiers, já um clássico.

"Venho aqui três ou quatro vezes por semana. Gosto muito de peixe e o deles é sempre bom." Não são poucos os apertos de mão e os sorrisos, sinal de que quem trabalha aqui conhece bem o cliente que acaba de chegar. Aliás - e só conto isto porque António Oliveira me autorizou após alguma insistência minha - o Dóri reabriu de férias um dia mais cedo para poder ser o palco deste Almoço Com... o que não deixa de ser também um gesto de simpatia pelo mais do que centenário DN. Como a casa está a ficar cheia, fico satisfeito de a abertura antecipada ser um sucesso.

Apesar de termos já falado muito de bacalhau, cuja história em Portugal tanto tem que ver com estas terras à volta de Aveiro, não é essa a escolha de hoje. Depois de alguma hesitação, optamos por nos sentar na esplanada, aproveitando que o sol já desfez o frio matinal, e concordamos em pedir peixe na grelha. Por sugestão da casa dividimos um belo pregado. Para entrada, vêm umas lulinhas fritas e umas amêijoas à Bulhão Pato. Não resisto a comentar que, se fosse em Setúbal, a minha terra, em vez de lulas estaríamos a comer era choco frito. O meu parceiro de mesa não se mostra muito convencido e leva mais um pedacito de lula à boca. "Estão ótimas." Concordo, claro, e lanço-me também às lulitas.

Sei agora que além de amigo de Itália António Oliveira fala também italiano muito bem, o que teve alguma influência na vida da empresa, pois a OLI tem sócios italianos. E pergunto-lhe como foi que aprendeu. "Olhe, foi graças ao padre de Esgueira. E ainda hoje é a língua estrangeira que falo melhor. Quando vou lá, com aqueles dialetos todos, nunca sabem de onde sou", conta, entre risos. E explica melhor: "Em 1968, tinha eu 13 ou 14 anos, houve essa oportunidade. O padre era italiano, estaria cá há uns dois anos, havia uma proximidade da nossa família com a igreja e com este padre e quando ele foi a Itália de férias e me convidou para ir com ele eu lá fui, de comboio, numa viagem de três dias. Estive um mês e tal em Itália, perto de Parma. Aprendi italiano com miúdos da minha idade, sobrinhos do padre e amigos dos sobrinhos. Passávamos os dias na brincadeira e quando voltei falava italiano já bastante bem. Lembro-me até de que aprendi os números a jogar ao Monopólio."

Para o jovem de Mataduços, uma aldeia da freguesia de Esgueira, subúrbio de Aveiro, foi uma experiência marcante, até por ter sido a primeira saída ao estrangeiro. E graças ao padre Luigi Sabini, que viria a ser missionário em Moçambique, António Oliveira ganhou uma ligação especial à cultura italiana: "Adquiri nessa altura uma paixão pelo cinema italiano. Na época, o cinema italiano era uma referência. Vi os filmes italianos todos, do Pasolini, do Fellini e de outros. Mantenho o hábito de ler livros em italiano, e não só leitura de trabalho."

Fico a saber que quem fala bem italiano é também o filho, António Ricardo Oliveira, de 27 anos, que tirou Relações Internacionais e fez o mestrado em Gestão, trabalhando hoje na OLI, que começou como empresa familiar em 1954 e em certa medida assim se mantém (Rui Miguel Oliveira, sobrinho do entrevistado, foi quem me mostrou a fábrica durante a manhã, explicando-me entre outras coisas que um autoclismo tem 70 peças!). António Oliveira diz-me ter também uma filha, Mariana, de 24 anos, que é mestranda em Engenharia Mecânica, no Instituto Superior Técnico.

Enquanto petiscamos as lulas e as amêijoas, aproveito o mote da filha estudar Engenharia Mecânica como o pai para o presidente da OLI me contar como foram esses anos em Coimbra, naquela fase final da ditadura e com a memória da crise académica de 1969 ainda bem fresca. "Podia ter ido para o Porto, mas acabei por ir para Coimbra por causa das companhias. E encontrei uma universidade onde era omnipresente a PIDE. A contestação dos estudantes era generalizada e havia sempre aquela perspetiva de irmos para a guerra em África. Recordo-me de um amigo me dizer que ia ao Brasil, ele jogava na equipa de râguebi, e que já não voltaria", relembra. O homem que confessa ter desde sempre preocupações sociais, e que se recorda bem dos amigos de pés descalços em Mataduços, conta ainda como ficou feliz a 25 de Abril com o fim da ditadura de Salazar e Marcelo Caetano, que se adivinhava: "Eu vivia em Coimbra numa espécie de república e tinha um colega que era casado. Foi a mulher dele que lhe ligou de Lisboa a contar que havia uma revolução." Esse ano de 1974 foi frenético. "Não fiz nenhuma cadeira", diz, a rir. "Mas no último ano fiz 17, incluindo todas as que tinha em atraso. E acabei a tempo." Nesse tempo de estudante, destacou-se um estágio no Ministério das Obras Públicas em Israel, a confirmar a vocação de viajante (e de cosmopolita, que o pai sempre incentivou) de António Oliveira. "Não foi a primeira opção, mas fascinou-me. Visitar Jerusalém é uma experiência única. E na época era também fácil visitar os territórios palestinianos. Lembro-me de ir a Belém de autocarro. Voltei muitas vezes a Israel, onde fiz amigos. E até cheguei a arranjar maneira de ir aos montes Golã e ao Sul do Líbano." Conto que, por acaso, estive neste ano em Israel, para uma reportagem sobre startups. A OLI tem exportado, em parceria com cerâmicas, sanitários inteligentes (com descargas no touch e de altura regulável por comando) para clínicas israelitas e tem também alguns clientes na Palestina.

Chega o pregado acompanhado de arroz de lingueirão, grelos salteados, batatas e ainda açorda de ovas (que o convidado dispensa). Falamos do início da carreira profissional, da hesitação em trabalhar ou não na Oliveira & Irmão, antigo nome da OLI. Já lá costumava passar as férias e até tinha ido aos 16 anos para Inglaterra trabalhar ("e comprar discos dos Beatles") para escapar a essa rotina. Acabou por ser mais mais fácil do que pensava a escolha: "Acabei o curso a 31 de janeiro de 1978 e a 1 de fevereiro estava na empresa" fundada pelo pai e pelo tio para venda de material de construção e outros, e que a partir de 1980 se lançou na produção de autoclismos desafiada por uma empresa italiana que se tornou sócia (e que em 1993 seria substituída por outra também italiana).

Ao fim de oito anos na empresa, António Oliveira assumiu o comando. Estávamos em 1986 e o novo presidente tinha 32 anos e muita vontade de inovar. Os mercados foram-se expandido (hoje a OLI exporta para 78 países) e em 1995 surgiu a hipótese de a empresa aveirense dar um verdadeiro salto. Conta António Oliveira: "Um cliente francês com quem já trabalhávamos há dois anos, uma fábrica de sanitários em cerâmica, abordou-nos para darmos um contributo que ajudasse a diferenciar o produto no mercado e ocorreu-nos, a nós e aos técnicos deles, desenvolver um mecanismo de descarga completa e de meia descarga, consoante se tratasse de sólidos ou líquidos a limpar. Na altura ainda nove litros e 4,5 - agora fazemos a mesma coisa com seis litros e três litros - e pensámos uma estratégia: passar a equipar as loiças do cliente com um mecanismo de dupla descarga. Parecia uma boa ideia mas depois no mercado correu mal, porque o mecanismo suscitou a curiosidade dos clientes, e quando os clientes tentavam desmontar o mecanismo, tirar a tampa para ver o que se passava, partiam o mecanismo e ele deixava de funcionar." Agora a curiosidade destrutiva da clientela francesa dá até vontade de rir, mas na época foi um problema. A empresa aveirense reagiu, porém, e com sucesso, apesar de novos contratempos. "A seguir desenvolvemos um produto que julgávamos à prova de bala, que tinha características muito boas, que foi prototipado, testado, validado com todos os cuidados e apresentado com grande ênfase numa feira em Paris, com a concorrência e os clientes todos expectantes. E, contudo, no mesmo dia chegou-nos a informação da fábrica do cliente de que as primeiras unidades montadas com este mecanismo tinham problemas de funcionamento porque não se tinha previsto as discrepâncias dimensionais e as falhas de tolerância da loiça. Foi o pânico no dia da apresentação termos esta notícia de mais um fiasco em cima do primeiro. Reunimos, portugueses e franceses, uma equipa de emergência na feira, alugámos um espaço e estivemos horas sem fim, mais de 24 seguidas, a analisar os problemas e as soluções e a equacionar a mudança dos moldes. O cliente então resolveu atrasar a apresentação do produto dois meses e nesse tempo tivemos de melhorar os moldes e corrigir essas deficiências. Conseguimos. A partir daí foi um sucesso e a massificação da dupla descarga na Europa e depois no mundo começa aqui."

Pausa para apreciar o vinho, um tinto do Douro, Crasto Superior. "Prefiro sempre tinto", diz-me o presidente da OLI, acabado de relatar talvez o episódio que mais definiu o caminho da empresa. Pergunto-lhe se quando viaja, seja a Itália, à Escandinávia (um mercado tão importante em que há uma fábrica específica dentro da principal só para o fornecer), à Alemanha (principal mercado) ou ao golfo Pérsico se é habitual deparar-se com autoclismos da sua empresa. "Sim", diz a sorrir.

"A primeira coisa que faço, eu e todos os nossos colaboradores, quando entro num restaurante ou num hotel é ir ver a marca do autoclismo", e mais risos. "E ainda me surpreendo quando vou a um café em Roma e encontro um autoclismo meu da OLI", admite, com uma modéstia que contrasta com o orgulho com que umas horas antes me mostrou o laboratório onde se investiga os autoclismos do futuro, como os que estão a ser testados para funcionar com água do mar em Hong Kong e Cabo Verde.

Está quase a chegar ao fim o almoço, não porque a conversa não corra bem e com interesse, mas porque o meu convidado sabe que tem de me dar boleia até à estação de Aveiro, onde vou apanhar o Alfa de volta a Lisboa. Por isso passamos por cima da casa de férias na Graciosa e de duas paixões conhecidas de António Oliveira, a vela e os carros clássicos (ainda me refere os Morgan...), e vou direto à opinião que o presidente de uma empresa com 49,2 milhões de euros de volume de negócios no ano passado, 80% dos quais através da exportação, tem do futuro da economia portuguesa. "O que é preciso em todos, como diz o Cristiano Ronaldo, é o trabalho. Trabalho com sentido de rigor e determinação. Depois não podemos defraudar as expectativas a nenhum nível, nem internamente na empresa nem fora, seja com a sociedade seja sobretudo com os clientes, que são quem paga isto tudo, portanto não podemos de modo algum correr o risco de não respeitar as expectativas e os compromissos. Temos de ser rigorosamente infalíveis. Em termos de receios, a conjuntura internacional é sempre um risco, mas é igual para toda a gente", diz.

Também o preocupa o problema demográfico, com a diminuição drástica do número de nascimentos nas últimas décadas a ser agravado pela recente emigração de jovens qualificados. "Costumo dizer que Portugal tem dois problemas graves: a água e a demografia. E na demografia não tem sido feito nada para minorar o problema do envelhecimento e da diminuição da população ativa", sublinha, acrescentando que mesmo na região de Aveiro, onde graças à Metalurgia Casal (a das motos) se criou uma tradição de formação de operários, começa a faltar gente para certos trabalhos. "As empresas vão ter de começar muito rapidamente a fazer um esforço de adaptação dos processos de trabalho para precisarem de menos gente", alerta.

Recordo-me de que durante a visita matinal à fábrica na Esgueira, ("que por coincidência tem como morada a travessa de Milão", alertou-me Mariza Gomes Gomes, diretora de comunicação) me ter sido dito que ali se trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, para uma produção semanal de 39 mil autoclismos e 159 mil mecanismos. E de eu ter perguntado sobre a política salarial da OLI, se havia incentivos para os cerca de 450 trabalhadores, incluindo as filiais, quando os resultados da empresa são bons. "Sim, tivemos um prémio neste ano", disse-me Mariza Gomes Gomes, sem esconder a satisfação.

É hora de pagar e nem sinal da conta. O restaurante Dóri oferece este Almoço Com... fico a saber. Nem vale a pena protestar, diz-me António Oliveira. Seja.

P.S. Estou prestes a finalizar o artigo e recebo um e-mail da OLI. Viram a primeira página do DN de ontem a noticiar a inauguração do novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa, do arquiteto Carrilho da Graça. E alertam: está equipado com autoclismos eficientes da OLI.

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