"Admito que os meios não tivessem chegado a tempo"

Vaz Pinto, em entrevista ao DN, diz que só após um balanço será possível perceber "se houve, ou não, coordenação" e quais as lições a tirar em consequência dos violentos incêndios nos concelhos de Tavira e São Brás de Alportel, combatidos por mais de mil bombeiros. Mas "admito que nalguns locais os meios não tivessem chegado a tempo", conclui.

Numa altura em que o violento incêndio florestal que devastou durante três dias os concelhos de Tavira e São Brás de Alportel se encontra em fase de "consolidação de extinção" após ter sido declarado como "dominado" no sábado à tarde, o comandante nacional de Operações de Socorro e Proteção Civil, em entrevista ao DN, embora destacando o "profissionalismo" de todos os elementos envolvidos no combate às chamas, não deixa de admitir a existência de falhas.

Porém, só no final, em face de um balanço e das lições a extrair, será possível, na sua perspetiva, perceber "se houve, ou não, coordenação". E reitera a sua total confiança no Comando Distrital de Operações de Socorro, em Faro, quando até surgem informações sobre um eventual pedido de demissão do principal responsável por esta estrutura no Algarve.

"Não é hora de fazer o balanço. O balanço faz-se no final e não durante uma operação de Proteção Civil com a complexidade que esta tem e que os algarvios bem conhecem, sabendo qual o comportamento do fogo na serra e, em particular, nesta zona da região, a velocidade de propagação quando existem condições meteorológicas como as que se fizeram sentir. Por exemplo, um técnico florestal contou-me que em duas horas foram consumidos sete mil hectares. Sobre a coordenação, não é altura de falarmos", começa por afirmar o comandante Vaz Pinto, notando que "não há memória em Portugal" de um incêndio ter mobilizado mais de mil bombeiros e outros operacionais no terreno.

"Temos de nos preparar para situações de exceção todos os dias", avisa.

Na opinião daquele responsável, o combate a este incêndio, que atingiu grande parte da Serra de Caldeirão, "foi muito difícil, atendendo a que as projeções eram feitas a quilómetros de distância e quando havia várias frentes". "E quando assim é, é preciso redefinir a estratégia e torna-se necessária uma monotorização sempre muito efetiva em face das enormes distâncias a percorrer. Tenho a certeza de que o Comando das Operações de Socorro fez o melhor possível e as decisões que tomou foram as do momento. Com os dados que tinha decidiu e não tenho qualquer dúvida de que decidiu em conformidade e sustentado em análises técnicas", sublinha ao DN Vaz Pinto, para quem "coordenar e comandar mais de mil homens não é fácil". "O controlo foi o possível e atendendo às circunstâncias muito especiais que se fizeram sentir com projeções feitas a inúmeros quilómetros de distância", considera o comandante nacional de Operações de Socorro e Proteção Civil, que não se recorda de uma "situação de tanta complexidade" como nestes incêndios.

Sem pretender pronunciar-se sobre a falta de limpeza dos terrenos florestais, Vaz Pinto preferiu deixar críticas à forma como o território está ordenado. "O que digo é que se as condições de ordenamento estivessem melhores naturalmente facilitavam as operações de combate" aos fogos.

Já em relação aos meios envolvidos no combate, entende que "nunca são suficientes, são sempre insuficientes". De qualquer modo, ressalva, nesta operação "os meios foram sempre os que se entenderam adequados à situação e que a cada momento estavam disponíveis".

Nos últimos dias, o presidente da Câmara Municipal Tavira, Jorge Botelho, em declarações ao DN, classificou como "desastroso" o resultado da coordenação no combate aos incêndios, observando que "se não fossem muitas vezes os populares a ajudarem, isto já tinha ardido muito mais", enquanto para o autarca de São Brás de Alportel, António Eusébio, "algo falhou" na estratégia de quem comanda os bombeiros.

O comandante nacional, Vaz Pinto, recusa reagir a essas acusações. "Não comento declarações de nenhum político. Nunca as comentei, nem as vou agora comentar. Não sei se são infelizes. O que sei é que nessa altura é preciso dar ânimo e confiança aos combatentes, pois são eles que resolvem as situações. Compreendo naturalmente que as populações se encontrem afetadas psicologicamente ao perderem o trabalho de uma vida e por isso aproveito para lhes transmitir uma palavra de solidariedade. Mas nestas situações é preciso a calma e vermos o todo e não o particular", frisa o responsável.

Mesmo assim, Vaz Pinto admite "que nalguns locais os meios não tivessem chegado no tempo adequado". "Agora, é preciso perceber que, com os meios disponíveis, há que decidir em prol de um todo e não de um particular", adianta.

Nesse sentido, a estratégia teve por objetivo que o fogo não atingisse a área de Barranco do Velho, numa outra zona da Serra do Caldeirão, já no concelho de Loulé, definindo-a como área "barreira", de forma a não atravessar a EN2. "Conseguiu-se esse objetivo, felizmente. Se não o tivéssemos conseguido, a situação seria muito mais grave. Já é uma tragédia muito grave aquilo que aconteceu, mas poderia ter sido muito maior", conclui Vaz Pinto, congratulando-se pelo facto de não ter existido qualquer vítima mortal.

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