Ação humana "descurou o ciclo hidrológico"

A ação humana "descurou completamente o ciclo hidrológico", o que dificulta o escoamento da água e resulta em inundações, segundo a diretora do mestrado em Riscos, Cidades e Ordenamento do Território da Universidade do Porto.

Ana Monteiro assegurou à agência Lusa que a chuva dos últimos dias "não é extraordinária, nem excecional", mas o que tem acontecido nas últimas décadas é um "complexo de memória seletiva associada a um conjunto de obra" que "descura" o ciclo hidrológico.

"Não tratamos das ribeiras, não as limpamos, entubamos e canalizamos os cursos de água, construímos as nossas casas com caleiras para que a precipitação seja drenada e se possível para que nós nem a vejamos no nosso passeio quotidiano", indicou a investigadora do departamento de Geografia, da faculdade de Letras da Universidade do Porto.

A investigadora, também com conhecimentos na área dos impactes ambientais, explicou que a água tem de ser drenada pelos circuitos subterrâneos até "encontrar no limite o oceano", lembrando que quer a carga, quer o escoamento desses circuitos têm limites.

Com marés altas e precipitação intensa, a "toalha freática" sobe mais rapidamente para a superfície e a "capacidade de escoamento diminui".

Neste cenário, a "única possibilidade da água se movimentar é à superfície", onde muitas vezes há obstáculos que têm de ser contornados e relacionados com outros circuitos a funcionar, como o dos esgotos.

"A situação é passível de ser compreendida e de ser evitada, mas o que solicitamos aos decisores é que voltem a esconder os cursos de água, é que voltem a esconder este eixo do ciclo hidrológico e por isso estamos sistematicamente surpreendidos" notou Ana Monteiro, sobre a atitude geral da população.

Como os portugueses contam com quatro estações, preferem, de forma geral, tempo mais seco e quente, o que "transmitido aos decisores, à medida que houve preferência do modus vivendi urbano, e foi esquecido o ciclo hidrológico".

"Faz parte do nosso padrão de qualidade de vida não usar o guarda-chuva e não ter a estrada inundada", resumiu.

Devido ao mau tempo, estão hoje sob alerta amarelo da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) os distritos de Coimbra e Santarém e sob azul Vila Real, Porto e Aveiro devido à previsão de ocorrência "de fenómenos que não sendo invulgares podem representar um dano potencial para pessoas e bens".

O alerta amarelo é o terceiro menos grave de uma escala de cinco e o azul é o segundo menos grave.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) colocou hoje sob aviso amarelo, segundo menos grave de uma escala de quatro, os distritos de Viana do Castelo, Braga, Vila Real, Porto, Aveiro, Viseu e Coimbra devido à previsão de chuva forte e trovoadas.

As povoações de Valonguinho, distrito de Viseu, e a de Reguengo do Alviela, em Santarém, estão hoje isoladas devido ao desabamento de terras e a inundações provocadas pelo mau tempo, de acordo com a Autoridade Nacional de Proteção Civil.

De acordo com a informação disponível na página da Internet da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), há duas povoações isoladas, várias estradas e pontes cortadas devido a inundações provocadas pela chuva forte nos distritos de Aveiro, Braga, Coimbra, Setúbal, Santarém, Viseu, Évora, Lisboa, Leiria e Portalegre.

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