A professora de Barroso e Marcelo

O DN lançou a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores docentes, com a ajuda das comunidades educativas. Está também a ouvir figuras públicas de várias áreas questionando-os sobre o papel dos professores nas suas vidas. Hoje, o cirurgião Eduardo Barroso lembra a Dona Alice, professora primária com quem ainda sonha

Qual é a recordação mais antiga que tem dos tempos de estudante ?

O Lar da Criança, onde fiz a infantil e a instrução primária. A 's'tora' Alice acompanhou-me da primeira à quarta classe. E repeti a quarta classe. Era uma senhora encantadora, parecia uma avozinha, sempre vestida de preto. Era terna e exigente.

Repetiu a quarta classe?!?

Repeti. Eu e o Marcelo Rebelo de Sousa repetimos a quarta classe porque não fazíamos os nove anos até ao fim de setembro. Na altura, para passar de ano nessas condições era preciso autorização especial do secretário de Estado da Saúde e da Educação. E como o secretário de Estado era o pai dele [Baltazar Rebelo de Sousa] não achou bem. Ele repetiu e eu fui atrás...

Foi colega de Marcelo Rebelo de Sousa durante quanto tempo?

Fomos colegas 10 anos. Entrámos com um ano e tal e estivemos juntos até terminarmos a quarta classe.

Em que outras escolas estudou ?

Depois, infelizmente fui para o Colégio Moderno. Digo infelizmente não por não ter gostado do Colégio Moderno mas porque, na altura, queria ter continuado no Pedro Nunes, onde foi criada uma turma A para os melhores alunos. Poderia ter ido, porque tive a nota mais alta da admissão ao liceu do País, mas a minha mãe teve de me pôr no Colégio Moderno, em regime interno, por questões familiares. Custou-me separar-me dos meus amigos.

Teve bons professores?

Tive a Dona Alice. Lembro-me ainda da Miss Perestrelo, uma mulher linda que nos dava aulas de Música. Também me lembro da professora de História, mas o nome ficou pelo caminho. A dona Alice foi a que marcou mais. Ainda hoje sonho com ela e com aulas dela. No colégio havia uma ligação a ela muito grande. Só os alunos mais atrasados levavam trabalhos para casa. Um dia a chorar fui-lhe pedir para levar, porque achava que era um privilégio enorme. E ela deixou. No Colégio Moderno tive dois professores fantásticos: Maria Alice, de Ciências Naturais, e uma professora de Francês, a doutora Luzia, exigentíssima. E o professor Franco, de Física. Houve muito mais, estive lá sete anos... Filosofia no sexto ano com o doutor [João] Bénard da Costa, que depois foi para a Cinemateca. Um homem muito inteligente.

E na Faculdade de Medicina?

Dois professores nos primeiros anos. Fenomenais. Xavier Mourato, de Histologia, um homem muito conotado com a direita da faculdade, mas com quem tive relação fantástica. Era um excelente pedagogo. Tive alguns problemas por me dar tão bem com ele. Os meus colegas associativos não gostavam. Chamava-me para tomar chá antes das aulas. Jorge Horta, pai da Teresa Horta, de Anatomia Patológica. As aulas dele no anfiteatro estavam sempre cheias. Deu-me 19, disse que 20 era por favor. O meu pai tinha-me prometido um carro se tivesse 20. Recebi um dois cavalos em quinta mão.

Muitos professores dizem que a sua profissão tem sido desvalorizada. Concorda?

Não sei. O respeito que eu tinha pelos professores era uma coisa reverencial, de facto. Penso que mudaram as situações. Mas não acho que os alunos sejam piores. São melhores. Foram criados em democracia e com um acesso à cultura que nós não tínhamos. Ir ao cinema era excecional, não havia televisão, não havia Internet. Os livros eram caros.

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