A "estranha" opção pela mecânica

No âmbito da iniciativa Professor do Ano, o DN tem ouvido todas as semanas personalidades portuguesas sobre os seus anos de escola. Maria da Graça Carvalho, cientista e eurodeputada eleita pelo PSD, recorda as esperas desesperantes pela biblioteca itinerante em Beja e os motivos que a levaram a uma carreira pouco comum para raparigas.

Lembra-se de algum professor em especial na primária e liceu?

O facto de ter tido muito bons professores foi determinante na minha vida. Lembro- -me da minha professora de Matemática, que era excelente, e da professora de Física, que nos ensinou a amar a física. Fazíamos passeios no campo, acampamentos, sempre a explicar-nos a física. Foi um despertar para coisas novas, que acho que me fez ter a carreira que tenho hoje de cientista. E lembro-me também da minha professora da escola primária.

Foi sempre boa aluna?

Sim. Era muito boa aluna. Ganhei um prémio nacional, aquele prémio que no 7.º ano se dava ao melhor aluno de todo o País, e tive sempre também o prémio D. Diniz, que era um prémio que se dava todos os anos ao melhor aluno de cada liceu. Gostava muito de estudar e gostei sempre muito da parte de ciências e penso que isso foi essencialmente devido aos bons professores que tive. Também pelo facto de a minha mãe ser professora. Porque tenho a ideia de que quando era muito pequenina, antes de ir para a escola, não tinha as características que depois comecei a ter. Sou agora uma pessoas extremamente organizada, concentrada, com muita memória e muito método. E acho que isso eu aprendi, que não me foi inato. Lembro-me de nos primeiros dias de escola me terem ensinado a organizar os cadernos e de a professora me chamar sempre a atenção de que os meus cadernos não estavam suficientemente organizados, não estavam suficientemente limpos e não estavam suficientemente arrumados. Portanto, acho que os bons resultados que tive ao longo da minha vida de estudante foram baseados nesses métodos que aprendi.

Os primeiros passos são fundamentais?

Acho que sim. Para mim foi essencial ter uma ótima professora na escola primária porque me incutiu o saber estudar, o prestar atenção. Os miúdos naturalmente têm dificuldade em concentrar-se, em ler um livro até ao fim, e eu aprendi isso com os meus pais, mas muito com os meus professores. Lia imenso. Na altura havia uma biblioteca em Beja mas não tinha muitos livros para jovens e eu ficava desesperadamente à espera que viesse a biblioteca itinerante porque já tinha lido tudo. Para ser franca, naquela altura, em Beja, nos meses de verão, o calor era tanto que a única coisa que fazia era ler à sombra. Depois abriu a piscina, quando eu tinha 11 ou 12 anos, e aí já havia uma alternativa.

O que a fez seguir Engenharia Mecânica, uma opção muito pouco comum na altura para raparigas?

É muito engraçado porque ainda no outro dia encontrei um recorte de um jornal, de uma reportagem que fizeram com a minha turma no 4.º ano do liceu e em que perguntavam o que queríamos ser. E eu disse que queria ser engenheira mecânica, ser cientista e trabalhar na área da energia. E só houve uma coisa que depois foi diferente: na altura eu gostava muito do nuclear, quando estava a despontar a polémica, porque do ponto de vista tecnológico era algo muito inovador, e depois mudei de opinião.

Como é que hoje se consegue atrair os melhores para o ensino?

Valorizando. O pilar de qualquer sistema de educação são os professores e tem de haver uma grande consideração da sociedade, dos políticos, dos pais e dos alunos pelos seus professores.

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